
O que faz de uma
cena inesquecível pode ser diversos aspectos. Mesmo uma aparente construção simples pode marcar. Quando penso no
filme Amadeus, obra-prima de
Milos Forman, uma das cenas que logo vem a mente é o primeiro encontro de
Mozart com o Imperador Joseph II. A peculiaridade da forma como o compositor chega, o rei tocando
piano, a sua forma desajeitada e principalmente, o olhar de
Salieri contribuem para a dinâmica e recordação da cena.
Amadeus é um filme que fala de ciúme, de uma luta interna de
Salieri para destruir aquele a quem mais admira, pelo simples fato de que queria ser ele. A curva dramática dessa cena específica mostra claramente esse embate unilateral. Isto porque
Mozart é completamente alheio à disputa estabelecida, ele exala um
talento natural e o expõe de forma ingênua, simples. Em uma cena anterior,
Salieri compôs uma marchinha, lentamente, pensando muito antes de cada nota, e, satisfeito, ele agradece a Deus pelo dom que tem. Na cena em questão, no entanto, ele vai perceber que seu dom não é nada perto do talento de
Mozart.

Nervoso para conhecer o rei,
Mozart observa o salão, que tem sua entrada fechada pelos guardas. Ao fundo ouve-se a melodia da marchinha composta por
Salieri, que o rei está treinando.
Mozart entra e cumprimenta alegremente um conselheiro por engano. Todos constrangidos apontam para o homem sentado ao
piano, o rapaz, então, espera que ele se levante e beija a mão do Imperador Joseph II. A arrumação da corte de um lado, o
rei no meio e
Mozart no outro, já demonstra o embate, mas o rapaz não se importa com a situação, observando a tudo, deslumbrado. Os cortes rápidos ajudam a construir o clima da cena, nervoso, constrangedor.
Mozart, apesar do nervosismo em conhecer o monarca, permanece com o sorriso ingênuo, sem se importar por estar sendo analisado por todos.
Uma conversa se segue sobre a contratação de
Mozart para a produção de uma ópera. Ele sugere que seja em alemão, o que desagrada ao
maestro. Uma situação constrangedora se segue, com
Mozart explicando sua idéia. O rei acaba concordando em ser uma
ópera em alemão. A troca de planos aqui, continua rápida, dinâmica. Sempre colocando
Mozart sozinho, enquanto que os demais personagens estão sempre agrupados.

Antes de se despedir,
Mozart diz que não precisa da partitura da marchinha composta por Salieri, pois já a decorou. Todos desdenham da possibilidade dele já saber tocar ouvindo apenas uma vez.
Mozart, então, senta ao
piano e toca perfeitamente a música. Se não bastasse, ele começa a sugerir alterações naquilo que considera estar imperfeito. É, então, que
Salieri começa a se corroer por dentro. A câmera começa a mostrá-lo em destaque, sozinho, sua fisionomia se alterando. A melodia composta naquele instante com grande facilidade por
Mozart chama a atenção de todos ao redor do salão. O diretor faz questão de mostrar as pessoas sendo atraídas pela música.
Mozart parece se divertir em cena, totalmente à vontade, ao contrário dos momentos anteriores, onde encontrava-se tenso, sem jeito. Os conselheiros ficam constrangidos e o rei sorri para aquele garoto simples com tanta facilidade para a
música.
A interpretação de Tom Hulce e F. Murray Abraham contribui para expor toda a tensão, mas é no texto e no talento de
Mozart comparado com as limitações naturais de
Salieri que está a magia dessa
cena.