
Mas nada disso será visto no filme de Anne Fontaine. Como o título bem define, é a história de Coco antes de Chanel, quando era orfã de mãe, abandonada pelo pai, costurava pela manhã e cantava em um cabaré à noite a singela música "Onde está Coco" de onde vem seu apelido. Gabrielle era uma garota ranzinza, que falava o que achava e não acreditava no amor. Paradoxalmente, a trama foca exatamente em seu envolvimento amoroso com dois homens: o milionário Étienne Balsan e o inglês Boy Capel. Tentando nos comover com aquela história, Anne Fontaine, que também assina o roteiro adaptado do livro de Edmonde Charles-Roux, constrói um melodrama até competente, mas que se torna um lugar comum. Milhares de histórias já foram vistas com aquele contexto. Ir ao cinema para ver a cinebiografia de um ícone como Coco Chanel nos traz a expectativa de algo mais.
Audrey Tautou comprova mais uma vez o seu talento, incorporando trejeitos, a forma de fumar ou beber café e a postura da estilista com seu humor difícil. Mas exatamente por Coco não ser uma heroína romântica, algo fica fora do contexto na história. Sua relação com Balsan é, no entanto, bonita. Principalmente pela transformação, bem defendida por Benoît Poelvoorde, daquele homem que só queria se divertir, em um ser sensível que aprende a amar uma mulher. Já Alessandro Nivola é puro charme na tela, mas sem chamar muita atenção pela interpretação.

Entendo a intenção de mostrar a mulher por trás do mito, recortando um pedaço de sua vida para mostrar como foi sofrida. Acho válida a construção de um melodrama e uma bela história. O único problema é que a protagonista poderia se chamar qualquer coisa. E por se tratar de Gabrille "Coco" Chanel eu esperava um outro enfoque.