
O que senti, tanto na projeção quanto na coletiva é que está aí uma nova linguagem para o cinema local. Não que a velha guarda seja ruim. Longe de mim falar mal de um Edgard Navarro, por exemplo. Mas há, em Estranhos, uma quebra da linguagem Cinema Novista. Aquela preocupação filosófica politizada, da estética da fome, do sertão, do filme conscientização. Há temas fortes, há momentos de reflexão, mas o ritmo é outro, a ambientação é outra e o propósito é contar uma história. Simples assim. E eu gostei bastante.
Ao contrário da maioria dos filmes nacionais, Paulo Alcântara não assina o roteiro, que é uma adaptação de Carla Guimarães do livro do peruano Santiago Roncagliolo. Na coletiva, Paulo diz que acredita que cada um tem a sua função no processo cinematográfico. Apesar de seu próximo longa de ficção estar sendo esboçado por um roteiro dele, provavelmente chamará um roteirista para um segundo tratamento. “Se tem uma pessoa especializada nisso, por que não fazer? Roteiro é inspiração, mas é muita técnica. Técnica de escrever, de organizar as cenas, os diálogos”. Ele fala ainda que tem outras habilidades como fotografia e montagem, mas como diretor, prefere focar no seu papel e distribuir o restante. “Fiz o primeiro corte de Estranhos, ficou ruim, joguei fora e dei para o montador. Eu estava envolvido naquilo, melhor uma outra visão de fora”. A produtora Solange Lima que também está debutando na produção executiva de longas completou “Se cada um tiver a sua função no processo caracteriza-se a indústria. E isso é que profissionaliza o mercado”.
A distribuição, grande calo do cinema nacional é outro processo que está sendo estudado com calma. Foi contratada uma empresa especializada e o planejamento já está sendo feito. A estratégia é mapear o país, começando por Salvador em maio desse ano, indo para as oito principais capitais e depois para o resto do país. “Não adianta a gente querer competir com um 'Lula, filho do Brasil'. Temos que formar o nosso público e ir crescendo aos poucos”, afirmou Solange. A equipe ressaltou ainda que o público-alvo do longa está nas classes C e D, retratadas no filme, e que têm uma grande identificação com a história.
O post já está enorme, então, a crítica do filme fica para maio, na época da estreia do longa, assim ajuda na divulgação dele. Resumo aqui, apenas que Estranhos me surpreendeu. Claro que tem problemas e excessos, é uma equipe iniciante e não se pode exigir perfeição. Mas, o conjunto da obra está muito bom, envolvente e nos faz sair do cinema com uma sensação de que vem muito mais por aí.
Elenco:
Jackson Costa (Luís)
Cyria Coentro (Amparo)
Nelito Reis (Geraldão)
Ângelo Flávio (Tonho)
Caco Monteiro (Valmir)
Mariana Muniz (Flor)
Larissa Libório (Neusinha)
Heduen Muniz (Antônio Fagundes)
Agnaldo Lopes (Rubens)
Tom Carneiro (Prof. Gaspar)
Jussara Matias (mãe de Antônio Fagundes)
Joilson Oliveira (pai de Antônio Fagundes)
Tania Toko (mãe de Neusinha)
Luis Pepeu (pai de Neusinha)
*Fotos de: Jade Prado e João Ramos/ Divulgação.