
Fábio Barreto tem três grandes méritos: ser filho de Luis Carlos Barreto, irmão de um grande diretor (Bruno Barreto) e constar em seu currículo o segundo filme brasileiro no Oscar (O Quatrilho). Com Lula, ele pretendia conquistar crítica e público com uma obra essencialmente melodramática. Mas, parece que nem mesmo o trágico acidente e sua situação delicada comoveram a crítica que continua batendo no filme, chegando a diminuir o número de salas em que este foi lançado. Uma pena, pois se lançado em outro momento, o filme poderia ser sucesso, já que a história tem muito potencial.

Voltando ao filme, ele acaba antes da fundação do PT. É, então, a história do Lula sindicalista e sua origem. O início, do nascimento à adolescência, foca na força de dona Lindu. Uma mulher que saiu do meio do nada com oito filhos, foi para São Paulo, e, com toda dificuldade, criou-os como pessoas de bem. Não há como não admirá-la ao ver o filme, principalmente com a interpretação de Glória Pires. É possível esquecer um pouco sua imagem global e se identificar com Lindu. A exceção de cenas sem sentido como a conversa entre ela e Cléo Pires após o casamento, parecendo algo arrumado só para brincar com o fato de serem mãe e filha interpretando nora e sogra.
A segunda parte, com Lula já metalúrgico, é bem feita. Rui Ricardo Dias consegue acertar no tom, não caindo na caricatura habitual, mas trazendo todas as característica daquele personagem histórico, até mesmo no timbre da voz. As cenas de discurso do personagem são muito boas, principalmente a do estádio onde as pessoas vão repetindo o que ele fala para as outras ouvirem. O que faz o filme perder um pouco é a ligação entre a primeira e a segunda parte. Muito picotada, com cenas esporádicas facilmente descartadas e que resolveriam o segundo problema, o filme é muito longo e acaba se tornando cansativo. Menos uns 20 minutos e estava ótimo.
A fotografia é coerente com momentos de contrastes incríveis como a viagem no pau-de-arara, a aridez do cenário, o sol forte, alternando com os closes dos personagens. Ou nas cenas em Santos, com os trabalhadores carregando as sacas e as mulheres catando os restos que caem no chão. Há ainda cenas poéticas, mas clichês, como Lurdes correndo entre as roupas no varal. E outras muito bem realizadas, como a já citada do estádio de futebol. Tudo isso, no entanto, serve apenas para comprovar que Fábio Barreto é um diretor correto, porém limitado. Não há traços geniais em sua mão, mas também, não é obrigatório o ser para fazer um filme bem resolvido. Lula, o filho do Brasil, é um bom filme e merece ser visto, uma pena que tenha sido lançado em um momento tão inoportuno. Quem sabe, em um futuro distante, ele seja resgatado. Só o tempo dirá.