
Em Chico Xavier já começa esse jogo de forma inteligente. Primeiro, sabe que fazer uma biografia é sempre complicado, delicado até, então, expõe logo isso nos letreiros iniciais: "A vida de um homem não cabe em um filme." Escolhas foram feitas para contar a história do maior médium espírita do país e essas escolhas ficam claras nas primeiras imagens. Sendo um homem de televisão, criticado por isso ao se aventurar no cinema, Daniel Filho utiliza-se do programa televisivo Pinga Fogo para costurar sua história. Tudo fica justificável, a linguagem, o ritmo frenético, os planos. E o mais interessante é a forma como ele joga com isso mostrando os bastidores do programa, que servem também para construir o clima de incredulidade de um segmento da sociedade em relação ao fenômeno espírita. Claro que o filme não se resume a isso, e tem alguns momentos criativos na direção, principalmente quando Chico é criança. Interessante também que, mesmo tendo o recurso do programa para recortes, as duas passagens de tempo em que mudam os atores que interpretam o protagonista têm passagens próprias com junção de cenas.

De modo geral, as interpretações estão ótimas. Os três atores que vivem Chico estão muito bem. Nelson Xavier está praticamente a encarnação do médium, Ângelo Antônio também defende o personagem de forma bastante bonita na fase jovem, aliás, a maquiagem que rejuvenesceu o ator está impressionante. Já o garoto Matheus Costa é convincente em sua dor, medo e ingenuidade. Agora a interpretação mais esperada para mim era mesmo Christiane Torloni. A atriz teve a coragem de emprestar sua dor pessoal para uma personagem que, assim como ela, perdeu um filho. Mesmo que não soubéssemos desses detalhes, o choro e as expressões daquela mulher são comoventes, mas confesso que esperava chorar mais com ela.
A direção de arte está impecável, assim como a pós-produção. O ponto fraco está na trilha sonora, o que chega a ser inusitado, já que música emotiva é uma das características do melodrama onde Daniel Filho tem tanta experiência.
