
Não se assustem, não vou mudar o foco do blog, até porque em matéria de futebol só os argentinos acham que há algo a discutir sobre o Rei do Futebol. E meu pai, claro, que diria Zico. O fato é que começou a Copa do Mundo de Futebol, amanhã a nossa seleção estreia contra a Coréia do Norte e resolvi falar aqui de filmes que trazem a arte da bola como tema. Cada semana será um. E para começar vamos comparar os documentários sobre dois jogadores incontestáveis, cada um com seu estilo, seu foco e sua história. Pelé X Maradona.


Isso tudo não quer dizer que Maradona, o filme, seja inconstestavelmente melhor do que Pelé Eterno, isto porque o foco dos dois filmes é muito distinto e a depender do seu objetivo, o tosco formato do segundo vai agradar muito mais. Em Maradona temos o homem Maradona como objeto, enquanto em Pelé, temos o jogador. O primeiro, com uma linguagem bastante política, decompõe o mito para compreender o que está por trás daquele jogador fenomenal e polêmico que se envolveu em drogas, sofreu derrotas sérias, mas é uma entidade em seu país. Impressionante o fanatismo do argentino em relação a esse mito. As cenas na boate com as músicas em sua homenagem são emocionantes. Já o filme de Massaini Neto se preocupa em resgatar a história do futebol de Pelé, como começou, que times jogou, suas copas, suas vitórias, seus títulos, tudo de forma bem esquemática e direta.

Para Kusturica pouco importa resgatar todos os números. Apenas duas coisas são ditas, que ele fez 35 gols com a camisa argentina e que ele fez o gol do século contra a Inglaterra, destacando a importância política daquilo. Um país subdesenvolvido vencendo o império. Uma charge com esse gol permeia todo o filme, primeiro com a rainha da Inglaterra, depois seu filho Charles, o primeiro ministro Tony Blair, finalizando com Bush. O presidente americano, então, está estampado na camisa que Maradona veste em uma das entrevistas (Fora Bush), quando ele declara todo o seu amor por Fidel Castro e por Cuba. Os jogos são apenas pano de fundo para construir o mito. O Deus do futebol, segundo eles.

A diferença entre os dois documentários é tão clara quanto a diferença entre Pelé e Maradona. Um foi um atleta exemplar, o outro foi polêmico. Na vida pessoal, nenhum dos dois pode ser chamado de exemplo de bom moço, mas a vida conturbada do guerrilheiro Maradona que venceu o imperialismo é bem mais interessante do que a do cabo Pelé, que serviu de bandeira para um governo militar que dominava o país. Está aí justificada a diferença de foco. Cada um escolheu aquilo que é incontestável. Pelé é o rei do futebol e em campo não tem como vencê-lo. Já fora dele, outros elementos podem fazer grandes personalidades superá-lo. Ou não. Se você quer ver bom futebol, encare o programa de Massaini Neto. Agora se você quer ver um bom documentário sobre uma personalidade ímpar que tem futebol como pano de fundo, dê uma chance para o sérvio Emir Kusturica.