
Quem me conhece sabe que sou uma das maiores defensoras do cinema nacional. Até de bairrista já fui chamada, o que é uma bobagem, porque defender um filme não é ser extremista, nem deixar de enxergar os defeitos. Por isso, estava com boas expectativas para o primeiro longametragem do publicitário Caco Souza. Mas, a sua intenção de contar o surgimento do Comando Vermelho não deu muito certo.
Ao sair da sessão de
Salt, ouvi uma pessoa dizendo que preferia filmes assim do que cinema nacional, pois nele só há violência. Fiquei pensando: Salt não é violento? Na verdade é, mas os americanos aprenderam a fazer da violência um espetáculo. As lutas, as perseguições e as explosões são balés tão bem ensaiados que o espectador abstrai e se diverte. E ainda ganham ajuda dos puritanos tradutores brasileiros que colocam no lugar de xingamentos pesados coisas como "droga" ou "poxa". Assim, ao ouvir um FDP em alto e bom som, os ouvidos estranham e acham que brasileiro xinga muito. De qualquer forma, os blockbusters são apenas filmes, não é vida real. Já a violência no cinema brasileiro é crua, por isso incomoda. É cinema denúncia, não cinema entretenimento. Mas, as vezes, isso cansa.

De qualquer forma, esse não é o caso de 400 contra 1. Fui ao cinema já esperando algo no estilo de
Cidade de Deus ou
Salve Geral. Poderia até ser algo como Carandiru, que é menos interessante. Mas, antes fosse. O filme de Caco Souza fica no limbo dos gêneros. Ele tenta uma estética irônica ao estilo de Quentin Tarantino, sem chegar a um rascunho do mesmo. Narrativas não-lineares podem não ser mais novidade, mas ainda assim, funcionam muito bem se tiver um motivo para tanto, um fio que os una, mesmo que apenas na cabeça do espectador. O roteiro escrito por Victor Navas com a colaboração de Julio Ludemi, porém, é um ping pong temporal sem sentido. Cenas curtas e soltas passeando de 81 para 73, depois para 77, para 70, voltando a 80, 79 etc. Tudo com legendas estilizadas com uma estética até interessante e costurado por uma narração over de Daniel Oliveira que é mais chata do que funcional, quase repetindo o que vemos na tela.

Ele é Willian da Silva, um dos fundadores do grupo, na época em que estavam presos na Ilha Grande. A aproximação com os presos políticos teria inspirado a formação do crime organizado. Mas, o filme pouco mostra disso. Sendo apenas duas cenas insinuantes que são negadas pelo personagem cômico do grupo. Será que eles não teriam essa mesma atitude independente da convivência com os revolucionários? Até porque eles eram separados por setores e pouco se encontravam. O mais interessante da história é acompanhar o trabalho da personagem de Branca Messina entrevistando os presos e sendo proibida de falar com os presos políticos.
A atuação de todo o elenco é boa, sem muitos destaques para o bem ou para o mal. Chama atenção apenas a caracterização de Daniela Escobar, acima do peso, com cabelo desgrenhado e quase não lembra a atriz global. Bem condizente com o papel. Aliás, o figurino e a direção de arte com a reconstituição da época são o ponto forte do filme. Tudo é muito bem cuidado, com uma fotografia funcional. A trilha sonora também é bastante feliz. Mas nada disso consegue segurar o filme, ou nos fazer envolver com ele. Até a revelação do porquê 400 contra 1 vira um anti-climax. Ainda assim, é um filme a ser conhecido. Dia 06 estreia em todos os cinemas do Brasil.