
Para o bem ou para o mal, VIPs constrói um filme em cima da história de Marcelo, adaptando livremente várias passagens de sua vida, inclusive um detalhe importante sobre sua origem e possível explicação para o comportamento do protagonista. Muita coisa veio do livro de Mariana Caltabiano, que está lançando também um documentário sobre o tema, mas, outras vem da capacidade criativa dos roteiristas, diretor e ator. O filme que vemos na tela é essa mistura de fatos e ficção que nos envolve e faz cativar pela personalidade Marcelo, seja ele Bizarro ou Henrique Constantino, passando por todos os seus heterônimos. Mas, claro, que todos eles baseados/ inspirados no homem real que enganou parte do país.

A cena inicial é bastante feliz, ao nos dar um vislumbre do episódio ReciFolia, para só, então, retornar ao início da história de Marcelo, quando este ainda era um adolescente de 17 anos. O caso Gol, como já disse, é o fato mais conhecido e o filme se tornaria uma expectativa desse momento, comprometendo as demais passagens. Então, vai uma dose para acalmar o público e retornar para mostrar como chegamos até ali. A primeira parte de Marcelo Bizarro, é mesmo bizarra. Wagner Moura não ficou bem como adolescente de cabelo emo e a sensação é de que aquele garoto que imita os colegas quase como espasmos involuntários e sonha com aviões é mesmo maluco, sem grande interesse.

Aliás, a escolha pelo humor é outro acerto do roteiro e direção. Várias cenas são construídas de uma forma divertida e irônica, animando a platéia e aumentando sua empatia para com o filme. Que dizer da cena em que Marcelo reclama das armas ao traficante paraguaio e ele diz "odiar armas" em um plano onde a tela nos mostra o cenário repleto de armas na parede? Ou quando, Wagner Moura imita Renato Russo, com todos os trejeitos do falecido vocalista do Legião Urbana? Ou ainda em um depoimento totalmente mentiroso, onde o Marcelo, agora Carrera, conta aos policiais seus falsos feitos em terceira pessoa? Ou ainda as interferências através da televisão em um jogo com a reação do telespectador, como o próprio caso do "traficante Carrera" e a entrevista de "Henrique Constantino" em Amaury Jr.?

A direção de arte e composição de época também estão de parabéns, desde os detalhes de orelhão ainda com ficha, até os cenários do ReciFolia tudo é muito bem cuidado. VIPs é daquele filme que saimos com a sensação de ter visto uma boa obra. Gosto de ver o cinema brasileiro assim, com trabalhos que nos envolvam, nos façam pensar e não apelem apenas para as comédias fáceis para conquistar o público. Torço para que ele possa ter uma boa jornada e que muitos outros venham por aí.
VIPs: (VIPs: 2011 / Brasil)
Direção: Toniko Melo
Roteiro: Bráulio Mantovani e Thiago Dottori
Com: Wagner Moura, Gisele Fróes, Juliano Cazarré, Jorge D'Elia.
Duração: 96 min