
Em 2005, um assalto ao
Banco Central de Fortaleza chamou a atenção do país. Não apenas pela soma vultosa de R$ 164,7 milhões que os bandidos levaram, mas principalmente pela engenharia do golpe. Coisa de Cinema, sem dúvidas. Não acharia estranho se os mentores do crime tivessem se inspirado no filme
Trapaceiros que Woody Allen lançou cinco anos antes. Pois, seis anos depois, a história de Fortaleza ganha as telas do cinema pelas mãos de
Marcos Paulo em sua estreia cinematográfica. Nem tão empolgante quanto o roubo em si, o filme tem altos e baixos.
A história de
Assalto ao Banco Central é inspirada no fato, os personagens não são exatamente os que assaltaram o banco em 2005, mas uma versão menos glamourosa de
Onze homens e um segredo. Dez homens e uma mulher que ficaram por três meses, arquitetando em uma casa, o golpe mais elaborado da história do país. Com ajuda de engenheiro, mestre de obras e muitos braços, eles cavaram um túnel de oitenta metros até o cofre do banco, de onde tiraram notas de cinquenta reais velhas que estavam para ser descartadas, ou seja, muito mais difícil de identificar. Ainda hoje, não é possível ter certeza se todos os elementos foram presos, mas boa parte do dinheiro roubado não foi restituído.

A trama possui um bom ritmo, com algumas boas sacadas e piadas interessantes, além de alguns diálogos inteligentes. Outras falas, no entanto, soam falsas, armadas, quase uma construção artificial da história. Mas, o grande problema do roteiro de
Assalto ao Banco Central é partir do princípio de que todos conhecem a história e com isso não construir um suspense em torno da trama. Não falo da estrutura fracionada de três tempos montados de forma não linear. Isso está claro e é bem construído ao contrário de outros filmes brasileiros que tentaram a mesma fórmula como
400 contra um. O problema é o que ele conta e quando. Qual a expectativa que temos de ver aquele plano ser construído se segundos depois já vemos os membros do grupo dando depoimentos para o Delegado Chico Amorim? Não temos nem tempo de nos envolver com a história, com os personagens, já somos avisados:
não vai dar certo.

Isso sem contar com o didatismo, em uma cena temos a vizinha interpretada por Ilva Niño olhando para a casa com uma cara de quem não gostou da movimentação na época do golpe, para logo depois cortar para ela dando um depoimento para polícia sobre suas suspeitas. Ou já na primeira cena do
Barão, ter um livro de
A Arte da Guerra em sua cabeceira, demonstrando que ele é um estrategista. É quase foto-legenda. Da mesma forma como o desenho de som é bastante infeliz. Tudo é muito óbvio, clichê, didático na trilha sonora, desde as trilhas de tensão, que anunciam a cena, quando as inserções musicais em algums momentos, como uma música de
Caetano Veloso em uma cena chave que soa didática. É assustador ver que André Moraes, que conseguiu construir uma bela atmosfera em
Lisbela e o Prisioneiro, aqui quase destrói o filme.

Mas, a tensão melhora bastante na metade do filme. O clima de suspense consegue ser construído e existem algumas boas cenas de ação. Tudo é crível, mesmo que ainda não seja o ideal. Marcos Paulo consegue nos contar uma história. De forma morna, mas ainda assim, com alguns momentos interessantes. Sem grande criatividade, é verdade, mas é interessante ver, por exemplo, a cena dentro do cofre, em paralelo com a central de segurança. Só não precisava do protetor de tela no monitor legendando que ali era o
Banco Central. O embate de Barão e Mineiro também é bem construído, assim como a perseguição ao grupo. A cena do caminhão na estrada também não faz vergonha.

O que não chega a fazer vergonha, mas incomoda um pouco é a tipificação dos personagens. São todos tipos clichês sem muita profundidade. Mas isso é típico em filme de ação americano também. Temos o velho policial com seu faro infalível, o jovem policial (aqui a jovem) cheia de garra, se preparando para substituí-lo. O engraçado, o policial corrupto, o afeminado, a vagabunda, o bandido quase herói, o comunista panfletário, o bala de canhão, os burros de carga e o chefão sem coração. Diante de estereótipos como esses, é até difícil exigir grandes interpretações, mas ainda assim é possível destacar algumas participações como Milhem Cortaz (o eterno 02 de Tropa de Elite) como o Barão e Gero Camilo como Tatu, finalmente em um personagem não cômico, aqui este papel é do baiano Fábio Lago. Destaque ainda para Vinícius de Oliveira - como esse menino cresceu - que interpreta o afeminado Devanildo. O filme conta ainda com participações especiais como as de Milton Gonçalves, Cássio Gabus Mendes, Antônio Abujamra e Ilva Niño.
Assalto ao Banco Central não é um grande filme, mas também não envergonha o nosso cinema. É mais uma tentativa válida e bem vinda de filmes de gênero no país. Uma forma de diversificar, buscar novos mercados e sair da mesmice de comédias
made in Globo Filmes. Não é um novo
Tropa de Elite, muito menos um
Cidade de Deus, ainda assim, consegue um bom envolvimento da platéia. É só não tentar comparar com os orçamentos astronômicos dos
blockbusters norte-americanos.
Assalto ao Banco Central (Assalto ao Banco Central: 2011 /Brasil)
Direção: Marcos Paulo
Roteiro: Renê Belmonte
Com: Milhem Cortaz, Eriberto Leão, Hermila Guedes, Giulia Gam, Lima Duarte, Tonico Pereira, Gero Camilo, Fábio Lago, Vinícius de Oliveira, Juliano Cazarré, Creo Kellab, Heitor Martinez.
Duração: 94 min.