
Capitães da Areia é de longe meu livro preferido de Jorge Amado. Poético, denso, humano e político. Há nas páginas de Jorge uma complexidade de emoções que traduzem os anseios de um escritor comunista que via a sua Bahia e os meninos que cercavam as ruas da cidade como uma espécie de revolta popular contra o estabelecido. São vários a favor dos meninos, em especial o padre José Pedro, logo ele, representante da instituição da Igreja, tão criticada por comunistas. Essa atmosfera mista presente nas páginas do livro do avô, Cecília Amado conseguiu manter em seu filme de estreia, menos político, mais humano, como ela mesmo definiu, mas ainda assim, a atmosfera da Bahia de Jorge Amado. Pena que nem tudo são elogios ao resultado da obra.

O principal problema do roteiro escrito pela própria Cecília em parceria com Hilton Lacerda é o entrave da adaptação de um livro que não conta uma história específica, mas uma vida especial de garotos que passam por várias situações, mais ou menos importantes. Tentando pincelar um pouco de cada situação descrita nas páginas, a dupla acaba sendo superficial em todas as histórias, que vai de forma picotada citando os acontecimentos. A história de Sem Pernas na mansão que o adota, por exemplo, é jogada na tela sem maiores explicações. Fica complicado compreender como ele se transformou de garoto de rua em filho dos patrões vestido de marinheiro e com o cabelo penteado. Fora que toda a dor e dilema do garoto é abreviada em uma cena. O surto de varíola que tira a vida de um dos capitães e leva Dora até o grupo também é bastante resumida, como em geral, são as tramas, vide a relação de Gato com a prostituta Dalva.

A direção de arte e a reconstituição de época, no entanto, tem apenas elogios. Tudo bem pensado e bem produzido, desde a organização do Trapiche, passando pelos cenários da Salvador antiga, os figurinos, e os objetos utilizados em cena. A montagem do filme também tem bons momentos, como as já citadas montagens em paralelo das situações de golpe. E o resumo final do Professor na Festa de Iemanjá. Aliás, a famosa festa no Rio Vermelho abre e fecha o filme de uma maneira bastante funcional, já que, além de capitães da areia, os meninos tem uma forte ligação com o mar e com a rainha dele. Assim como Jorge Amado que já a retratou em tantas outras obras. Cecília Amado só força um pouco na montagem no ato final, em uma tentativa frustrada de criar emoção a todo custo com a situação de Dora, em uma infantil mistura de passado e presente.

Capitães da Areia é daqueles filmes que tem diversos prós e contras que nos conduzem em emoções dúbias, mas sem nunca ser um desperdício de tempo. Há frases de efeitos como "ninguém vai olhar por nós" ou "parece apenas criança, mas não é" e diálogos muitas vezes armados, sem naturalidade. Mas, carrega em si a força do texto de Jorge Amado e a Bahia que ele retratou para o mundo. Um filme deslocado do tempo, que mistura denúncia social e problemas aparentemente eternos, com humanidade. Sem julgamentos, nem um olhar paternalista. Os capitães simplesmente passam, deixando suas marcas de pegadas na areia. E nós, testemunhamos sua existência.
Capitães da Areia (Capitães da Areia: 2011 / Brasil)
Direção: Cecília Amado
Roteiro: Cecília Amado e Hilton Lacerda
Com: Jean Luís Amorim, Ana Graciela, Robério Lima, Paulo Abade, Diogo Lopes Filho, Marinho Gonçalves, Ana Cecília Costa.
Duração: 96 min.