Espelho, Espelho Meu existe uma piada maior do que eu? Essa deveria ser a pergunta feita pela
rainha má interpretada por
Julia Roberts na primeira versão de
Branca de Neve em
live action do ano. Não que isso seja uma crítica negativa, apenas uma constatação de que
Mirror, Mirror está longe de ser uma adaptação fiel dos
contos dos irmãos Grimm ou muito menos uma
aventura saudosa do clássico da
Disney. O
filme do indiano
Tarsem Singh é uma
paródia divertida que poderia facilmente se chamar:
Deu a Louca na Branca de Neve.
Esqueça o
conto de fadas tradicional. Apesar do início clichê do
Era uma vez... com um prólogo da história a ser contada, a
rainha já adverte no início "Essa é uma história sobre mim, não sobre ela". Como uma rainha louca,
Julia Roberts busca desesperadamente chamar a atenção para si, com diversas
piadas e atitudes surreais como brincar com seu puxa-saco número um, usando a corte como peças de uma espécie de misto entre xadrez e batalha naval. E ela se sai bem, sendo sempre encantadoramente perversa, a ponto de não conseguirmos odiá-la. Ela ainda é a
rainha má de seu reino, quer se manter a mais
bela e se livrar de sua enteada
Branca de Neve. Mas, a missão mais urgente é mesmo casar com o jovem
príncipe Alcott, para sair da falência e continuar dando bailes glamourosos.

O
filme começa com sua narração, observando uma espécie de bola de cristal oval, onde conta como tudo começou a partir do nascimento da menina
branca como a
neve com os cabelos negros como a noite. Essa parte é toda encenada através de uma animação muito bem realizada, onde detalhes podem nos dar uma dimensão de um belo
conto de fadas. Apenas a entonação da voz da
rainha, sempre irônica, e do texto ferino nos dá o tom de que aquela não é uma história tradicional. É uma
paródia sem pudores com o
mito, que não leva nada a sério.
Assim temos um
príncipe bobo, uma rainha louca, um reino na miséria, uma princesa guerreira e
sete anões que formam um bando procurado de saqueadores. Sim, as sete criaturinhas mágicas que vivem na floresta não são mais trabalhadores braçais em uma
mina de ouro. São uma gangue exilada que assalta a todos que ousam pegar o caminho da floresta. E para amedrontar seus adversários usam máscaras e pernas que os dão a aparência de gigantes. Aparentemente são pernas de pau, mas, elas são elásticas, capazes de permitir piruetas e encolher quando eles tem vontade. Ou seja, tudo não passa de uma grande piada. Até a forma como a
rainha conecta-se com o seu valoroso espelho é completamente diferente de um simples reflexo.

A piada é construída até mesmo com o próprio elenco.
Julia Roberts, a eterna linda mulher, agora é a
rainha que luta desesperadamente para não perder o posto de mais bela para a jovem
Lily Collins. Várias piadas são feitas com a sua idade, a começar com o "eu não tenho rugas", passando pela "nós não temos a mesma idade" até chegar ao surreal tratamento de
beleza com abelhas picando os lábios para parecerem mais carnudos e sangue sugas beliscando seus dedos. A velha fábula do novo substituindo o velho ganha nova roupagem, mas continua viva. E o roteiro de Jason Keller e Melisa Wallack se aproveita bem disso com piadas propícias em momentos divertidos. Há alguns exageros, é verdade, como o
príncipe de cachorrinho e o assistente virando uma barata, mas no geral, é um
filme divertido.

A direção de arte é espalhafatosa, as cores são berrantes, a fotografia lavada do cenário para contrastar com as roupas, a vila em decadência é cinza e marrom, assim como a
floresta é escura, mesmo durante o dia. A casa dos
anõezinhos é toda construída em madeira e bem simples, condizendo com aqueles moradores. a começar pela placa "proibida a entrada de maiores de 1,20m". Vale ressaltar que, além de ladrões, esses personagens tiveram suas personalidades bastante alteradas, até os nomes não são mais os mesmos, tendo nomes como Lobo, Açougueiro ou Napoleão. Esqueça também o caçador que irá levar
Branca de Neve para a floresta, aqui é apenas o atrapalhado braço direito da
rainha que faz o "serviço" e a grande ameaça do local é uma besta que assombra a todos há muito tempo.
Espelho, Espelho Meu não é mesmo daquelas histórias para serem levadas a sério. É uma
paródia com o único intuito de tirar um sarro com a trama criada pelos
irmãos Grimm. Leve, divertida, com alguns momentos bobos, além de um ou outro erro de continuidade a exemplo do treinamento de
Branca de Neve que acontece em paralelo à busca do
príncipe pelos ladrões que assustam o reino. Não entrará na lista dos melhores
filmes do ano, mas fugiu de uma forma inteligente de ser uma das bombas de listas diversas. No final, fica um saldo positivo de toda essa balbúrdia e a certeza de que
Julia Roberts ainda têm fôlego para se manter como uma das estrelas de Hollywood.
P.S. Os créditos trazem uma última piada bem ao estilo de Bollywood, fazendo jus às raízes do diretor
Tarsem Singh.
Espelho, Espelho Meu (Mirror Mirror, 2012 / EUA)
Direção: Tarsem Singh
Roteiro: Jason Keller e Melisa Wallack
Com: Lily Collins, Julia Roberts, Armie Hammer, Nathan Lane e Sean Bean.
Duração: 106 min.