
Há diretores que acertam uma vez e depois passam anos sem conseguir surpreender novamente. É o caso de
Bryan Singer, que em seu segundo
filme conseguiu construir um dos clássicos do
suspense moderno. Tudo bem que os maiores trunfos de
Os Suspeitos seja o roteiro de Christopher McQuarrie e a interpretação de
Kevin Spacey. Mas, a direção precisa de
Singer, nos envolve a cada cena dessa surpreender e misteriosa história.
Tudo começa com um
incêndio em um navio que tem apenas dois sobreviventes. Um húngaro queimado que mal consegue falar e um conhecido ladrão, o
Verbal Kint, um homem
aleijado e desqualificado que fala mais do que devia, como anuncia o seu codinome. É através do seu depoimento que iremos conhecer a história mais fantástica e misteriosa que o detetive Dave Kujan já ouviu. Um plano bem elaborado, sem um mentor aparente no início, quando cinco procurados são colocados juntos em uma sala de
suspeitos. Prato cheio para uma ação em conjunto, o que seria um erro quase amador da polícia. Mas, tudo, na verdade, faz parte de um homem ainda mais misterioso e poderoso:
Kayser Soze. O diabo em pessoa.

Toda a chave do
filme está aí. Repetindo a frase do poeta francês Charles Baudelaire,
Verbal Kint, o personagem de
Kevin Spacey, avisa: "O maior truque do
diabo foi convencer o mundo de que ele não existe".
Kayser Soze é uma lenda, ninguém sabe exatamente quem é, nem o que é, nem mesmo se existe. Mas, tanto o húngaro queimando no hospital, quanto Verbal na delegacia parecem ter um temor imenso de sua figura. O que ele queria exatamente ao juntar os cinco meliantes e os conduzir em um plano que eles pensavam ser deles é o
mistério que só iremos saber no final e ficar surpresos com isso. Mais surpresos ainda de perceber, ao rever o
filme, que todas as pistas estavam lá em nossa frente o tempo todo, somos enganados porque nos deixamos levar pela aparência. Não deixa de ser a estratégia do
filme, mas um olhar mais atento pode suspeitar da verdade. Principalmente na cena inicial em que ainda não estamos atentos o suficiente para perceber isso.

Se o roteiro é genial e nos surpreende, a direção de
Bryan Singer é mesmo precisa. Há uma construção incrível do clima do
filme, vide a cena em que os cinco são liberados da cadeia. A troca de olhares entre eles, cada um em um canto da rua, a
cumplicidade que se forma. O
mistério construído em relação à verdadeira personalidade de Dean Keaton, dos cinco o que aparentemente se regenerou e reluta a entrar no plano. A forma como cada um cumpre o seu papel ali. Há muitos planos-detalhe, cuidado nas passagens de cena, retorno dos
flashbacks e ambientação em geral. Há uma ótima cena que utiliza o reflexo da porta de vidro, por exemplo, para deixar Keaton encurralado ao ver sua esposa assinando um contrato com o funcionário de
Kayser Soze. Isso sem falar na ação final, dentro do navio, que traz uma câmera subjetiva de Soze, criando ainda mais tensão para sua identidade.
O
elenco é outro ponto forte do
filme. Os cinco
suspeitos são compostos por um time de primeira linha que nos ajudam na construção dramática da situação e na manutenção do
mistério.
Gabriel Byrne é o dúbio Dean Keaton, bandido procurado que simulou sua morte e casou com uma advogada que agora os ajuda,
Benicio Del Toro faz o intempestivo Fred Fenster,
Stephen Baldwin é o inteligente Michael McManus,
Kevin Pollak dá vida ao parceiro Todd Hockney e
Kevin Spacey interpreta o 'Verbal' Kint, uma espécie de pobre coitado que sobrevive e nos conta a história com uma capacidade incrível. Toda a tensão do
filme depende de sua voz e de sua interpretação. Ele dá o tom, nos faz embarcar naquele plano, nos faz temer
Kayser Soze como o próprio
diabo. Tudo muito bem conduzido.

A montagem e a trilha sonora acompanham o ritmo com maestria. O
filme é todo pensado e construído para criar o efeito de tensão e
suspense. Ficamos grudados naqueles acontecimentos, gostamos de embarcar naquele plano e ficamos satisfeitos ao sermos surpreendidos em seu final. Não há uma sensação de engano frustrado, mas de surpresa recompensadora. Não por acaso é citado por muitos como o melhor
filme de
suspense já feito. Tudo faz parte de um jogo de esconde e mostra muito bem arquitetado. As características de cada personagem é criada como uma luva para comprovar o modelo actancial de Greimas, onde receptor sujeito–objeto, adjuvante–opositor, doador–receptor só poderiam ser aquelas figuras apresentadas. Tudo está no lugar em que deveria estar a começar pelo
detetive e o
narrador da trama.
Chega a parecer mentira que um diretor que foi tão feliz nessa obra nos entregou depois coisas como
Operação Valquíria, os primeiros
X-Men e
Superman - O Retorno. As escolhas de
Os Suspeitos demonstram que
Bryan Singer pode muito mais com um roteiro bem feito e atores tão bons à sua disposição. Fica a esperança de ainda ver algo assim novamente. Por enquanto, o melhor mesmo é reverenciar
Os Suspeitos, uma obra-prima do
suspense no
cinema.
Os Suspeitos (The Usual Suspects, 1995 / EUA)
Direção: Bryan Singer
Roteiro: Christopher McQuarrie
Com: Gabriel Byrne, Kevin Spacey, Benicio Del Toro, Stephen Baldwin
Duração: 106 min.