
Assim como o amigo Hugo do Cinema - Filmes e Seriados, fico assustada com as mudanças de preferência do público. Sou mesmo de uma outra geração que se acostumou a assistir filmes com seu som original e isso não é chatice de cinéfila metida a intelectual. É, principalmente, costume. Sim, a banda sonora que vai aberta para o mercado internacional é reduzida, sendo assim, por melhor que seja a dublagem, nossos técnicos têm limitação, isso sem falar na interpretação dos atores, como já demonstrei na análise da cena de Advogado do Diabo. Mas, independente das melhorias ou perdas, ver um filme dublado ou legendado é mesmo uma questão de educação visual e sonora. E a geração que enche as salas de cinema dos diversos shoppings espalhados pelo país foi educada vendo filmes na televisão aberta.

Afinal, o que é ver um filme na televisão aberta? Seja na Globo, SBT, Record, BAND? Primeiro, claro, um filme dublado (quem não se lembra da famosa "versão brasileira Herbert Richers"). Depois um filme com vários comerciais, onde é possível se levantar para ir ao banheiro, conversar, comer algo, etc. Além claro, de estar em casa e poder fazer o barulho ou movimento que se queira sem precisar se concentrar apenas no filme. Por último, não se importar com quem fez o filme, é apenas mais uma história para passar o tempo, ou alguém já viu créditos de filmes na televisão aberta? Basta observar o comportamento nas salas de cinema, com cada vez menos educação em ver o filme, os barulhos, as luzes que incomodam o vizinho, sem falar no movimento quase desesperado de se levantar antes mesmo do primeiro crédito subir na tela. É a verdadeira Geração Plim Plim, poderíamos dizer.

A função do cinema também era essa. O entretenimento coletivo, a desculpa para se encontrar com os amigos. Lembrando que ele reinou absoluto por muitos anos, antes da popularização da televisão. Mesmo as notícias eram vistas na sala de cinema, os gols da rodada, as informações das guerras, as imagens do outro lado do mundo. Os cinemas de rua tinham sua aura própria. O glamour da indústria de sonhos, os grandes artistas, o fascínio da tela grande. Lembro bem que mesmo na década de oitenta, quando comecei a frequentar as salas, ainda era um acontecimento ir ao cinema, uma ansiedade por algo que só poderíamos ver ali.

Assim, ir ao cinema é apenas mais um ritual rotineiro, como rodar pelo shopping para passar o tempo. E se é assim, para que o trabalho de ler legendas que traduzem falas ditas em uma língua estrangeira? Não é necessário o primor de um efeito sonoro que nem será percebido a maioria das vezes pelo ouvido leigo, e pouco importa se a voz não é do ator que vemos em tela. Interpretação também não precisa ser a melhor, afinal, basta entender e acompanhar a história em tela. Eles sempre viram filmes na televisão dessa forma e sempre foi bom, não é? Não podemos culpá-los. Nem mesmo julgá-los. Afinal, é mesmo possível ver um filme dublado e ter uma experiência medianamente satisfatória.
Os defensores do dublado ainda argumentam que é uma defesa de mercado, uma valorização da própria língua, que na Europa todos os filmes são dublados na língua nativa, como se copiar algo da Europa fosse auto-afirmação de alguma coisa. É verdade, a Europa dubla os filmes americanos, como os Estados Unidos sempre dublaram os filmes europeus. Há questões de mercado envolvidas nisso, não sejamos ingênuos. Mas, no Brasil, isso não quer dizer exatamente que somos mais abertos ao imperialismo yankee. Afinal, os filmes europeus ou asiáticos não são dublados para o inglês, por exemplo. É mesmo a defesa e preservação do som original do filme.
