
O filme de Daniel Alfredson, ao contrário de Niels Arden Oplev (nem vou entrar no mérito comparativo com o remake de David Fincher), mantêm o tom de realidade crua nas ruas de Estocolmo, mas consegue construir um clima de suspense mais condizente com a trama. A tensão das histórias aparentemente paralelas que começam a se desenvolver no primeiro ato e as ligas que vão sendo feitas aos poucos satisfaz ao espectador de uma maneira interessante. Demora até o que seria o plot, contrariando as "regras" do cinema norte americano que a maioria está acostumada. Alfredson não parece ter pressa, o que marca bem o cinema sueco, sempre construído nos detalhes. E aqui funciona perfeitamente com a construção da longa e bifurcada história de Lisbeth Salander.


Apesar de começar na redação da Millennium, e usar a revista como ponto de partida de todas as investigações, o filme continua dando pouca importância a esse núcleo. Apesar de mais ativa, Erika Berger continua menos ativa do que é nos livros, sendo quase figurante de luxo. Sua trama no jornal é esquecida, o que tira apenas um desfecho interessante ligado a Lisbeth, mas que não chega mesmo a comprometer o percurso da história. A família Vanger, do primeiro livro / filme, também foi esquecida, como se não se tornassem sócios da revista. E a própria briga interna entre sócios e linha editorial não é explorada. Também, não daria para abordar tudo, já que a trama dos crimes é bastante extensa.

A mudança de direção do primeiro para o segundo filme sueco da série trouxe outro ânimo para a trama. Ainda que mantenha o ritmo lento, construído aos poucos, com um tratamento mais realista e cru, é possível ver que Daniel Alfredson deu vida nova à história de Lisbeth Salander e nos deixa ainda mais curiosos com o resultado do terceiro filme, também dirigido por ele. É uma pena também não termos a oportunidade de conferir essa história, e principalmente a terceira no cinema. Pois o impacto da tela grande nos daria uma experiência ainda melhor.
Só resta torcer para que A Rainha do Castelo do Ar não demore tanto para chegar por aqui, e que a versão norte-americana consiga manter o bom nível.
A Menina que Brincava com Fogo (Flickan som lekte med elden, 2009 / Suécia)
Direção: Daniel Alfredson
Roteiro: Jonas Frykberg
Com: Noomi Rapace, Michael Nyqvist e Lena Endre
Duração: 129 min.