
Políssia

O filme mostra a realidade de uma forma dura até, mas também sensível e com algum humor. O foco não são as vítimas, nem os presos, mas os policiais. O grupo, bastante heterogêneo vai nos sendo mostrado em três situações. Em ação, seja nas ruas ou interrogando alguém, nos intervalos onde interagem entre si e em suas residências. Interessante como todos parecem ter problemas em suas vidas pessoais, se divertindo mais no trabalho ou, principalmente, quando estão em equipe em horas vagas.
Aí, o filme ganha um tom mais ameno quando os vemos brincar de mímica, se divertir em uma boate ou jogar conversa fora em uma lanchonete qualquer. No trabalho, a situação varia bastante de caso a caso. É possível vermos alguns irritados ao extremo, chegando a agredir os interrogados, como também os vemos se divertir com a miséria alheia como no caso da moça do celular. Em uma mesma situação, eles são capazes de alternar de humor facilmente, como na ação à comunidade romena, quando são duros ao tirar as crianças dos pais, mas logo se parecem com crianças, ao brincar com elas no ônibus.

Por ser um tema forte, baseado em casos verídicos, Maïwenn constrói uma linguagem quase documental. A rotina nos é passada de uma forma bastante realista, crua, sem grandes tratamentos na fotografia e com uma interpretação bastante naturalista. Mas, ainda assim o ritmo é ágil, com uma trilha sonora inspirada e e uma divisão bem interessante de acordo com o humor dos personagens.
Interessante é que, mesmo focando em tantos personagens, acabando compreendo cada um deles e nos surpreendendo com suas atitudes e desenrolar de cada trama paralela. Talvez por isso, a cena final choque tanto. Com sua força particular e ótimos momentos, Políssia é um filme que traz temas importantes e boas reflexões, tudo isso de uma forma bastante sensível. Um filme verdadeiro como muitos documentários não conseguem ser.
Políssia (Polisse, 2011 / França)
Direção: Maïwenn
Roteiro: Maïwenn
Com: Karin Viard, Joey Starr e Marina Foïs
Duração: 127 min.
A Vida Vai Melhorar

Através dessa promessa-título, começamos a acompanhar a jornada do casal Yann e Nadia. Ele, um chef de cozinha desempregado, ela, uma garçonete mãe solteira. De um romance efêmero, surge o sonho de uma vida em comum melhor. E tudo vai confluindo de uma maneira bastante orgânica em um passeio no parque, uma casa vazia, uma ideia boa. Daí começam os problemas, as dívidas, os empecilhos, as escolhas erradas, os destinos. Mas, continuamos acreditando na promessa.
Sim, a vida vai melhorar, mas enquanto isso não acontece, nossos protagonistas vão cavando cada vez mais seus próprios poços na lama. E levando o garoto Slimane junto. O roteiro é hábil ao nos conduzir junto a Yann e Slimane, deixando Nádia de lado, pois todo o impacto vai sendo construído de uma maneira mais forte. Destruindo os sonhos aos poucos, sem nunca apagar a chama da esperança.

Já Nádia é uma personagem menor, ainda que a atriz Leïla Bekhti a construa bem. Uma mulher sem muita personalidade, não condizente com uma estrangeira batalhadora, mãe solteira. Ela parece que está sempre sendo levada por decisões alheias a ela. Desde o primeiro encontro quando ela lança uma certa possibilidade 0%. Não é de se admirar que chegue onde chega, e a maneira como isso acontece. Ainda assim, sua relação com Yann é crível.
A Vida Vai Melhorar tem uma poesia própria, repleta de melancolia, dor e esperança de mudança. É construído de uma forma autêntica e forte, bastante flúida, com um cuidado na direção especial nos enquadramentos, contrastes de luz e sombra, trilha sonora. E se tudo não bastasse, diante de tantas malezas ainda consegue arrancar do fundo de nosso ser a certeza desse futuro melhor que nos enche de alegria em sua bela cena final.
A Vida Vai Melhorar (Une vie meilleure, 2011 / França)
Direção: Cédric Kahn
Roteiro: Cédric Kahn e Catherine Paillé
Com: Guillaume Canet, Leïla Bekhti e Slimane Khettabi
Duração: 110 min.