
Filmes de
adolescentes não precisam ser tolos. Mesmo quando se trata de um tema já batido como a não-aceitação diante da
High School que sempre parece aterrorizador para os mais tímidos.
Stephen Chbosky conseguiu a proeza de nos presentear com uma obra sensível que trata o tema da forma mais respeitosa possível em
As Vantagens de Ser Invisível. História que ele escreveu em um
livro, adaptou o roteiro e dirigiu o
filme, tornando tudo muito fiel e pessoal.
Charlie (
Logan Lerman) é um garoto estranho. Não é simplesmente tímido, parece viver em um mundo particular. É
inteligente e quase tem vergonha de demonstrar isso, ama os livros e escreve cartas a um amigo misterioso. Sua vida é contar os dias para sair da
escola e acabar com a tortura que é conviver naquele lugar. Até que ele conhece pessoas diferentes, a "turma dos deslocados", liderada por Patrick (
Ezra Miller) e Sam (
Emma Watson).

Mais do que uma trama,
As Vantagens de Ser Invisível tem um personagem. E um ator.
Logan Lerman impressiona em sua incorporação de um rapaz mais do que introvertido. Suas expressões, sua dificuldade de estar vivo, sua sensação de não-pertencimento é tão verdadeira que nos toca profundamente. A química dele com
Ezra Miller e
Emma Watson também ajuda. É possível acreditar na união daqueles três, nos olhares encantados de Charlie para cada atitude de Patrick ou pelo fascínio por Sam.
Emma Watson e
Ezra Miller também conseguem uma ótima performance em dois personagens tão estranhos e complexos.

Há uma poesia especial na dor, ainda mais na dor da
adolescência, momento em que estamos nos descobrindo enquanto seres humanos. E Charlie é essa
poesia em ebulição. Sua relação com o professor de literatura vivido por
Paul Rudd que sempre o incentiva a ler e escrever, por acreditar em seu talento, é um adendo interessante à trama. A estranha relação com a tia Helen é outro elemento que surge de maneira bastante fluida, em
flashbacks que são quase visagens, mas se organizam em harmonia. Já um detalhe da personalidade do protagonista acaba destoando, caindo de pára-quedas em nossa frente, apesar de não ser algo que comprometa totalmente o resultado da obra.
Porque
As Vantagens de Ser Invisível pode não ser perfeito, mas é um belo
filme. Uma obra que harmoniza roteiro, direção, fotografia e montagem de uma maneira bastante coesa. Um
filme em que se destaca as atuações e a
trilha sonora, um elemento bastante presente durante toda a trama, em especial pelas fitas cassete construídas pelos personagens, já que o
filme se passa em um ano não muito definido pelo
filme na década de 90 (pelo livro é o ano de 1991).

O que talvez incomode nessa indefinição de seres é exatamente a natureza daquele grupo. Tipos tão exóticos que são discriminados na escola, mas são capazes de brilhar no palco no show
The Rocky Horror Picture Show. Tudo bem, é o alternativo do
alternativo, mas é um processo profissional com plateias em delírio. Afinal, o que é aquele grupo de amigos? Uma trupe teatral? E como pessoas tão bem resolvidas externamente, apesar de cada um esconder sua dor interna, podem ser os deslocados? Definitivamente, não são
losers.
Mas, também, não tem porque tudo ser tão preto no branco. São seres humanos em formação, em busca de suas próprias
identidades que simplesmente passam por nós, nos apresentando suas
dores e delícias de serem o que são. São encantadores, mais do que simples personagens, são vivos, pulsantes e nos envolvem em seus temas. São o sonho de Charlie, um garoto que nos cativa por sua ingenuidade diante da vida. Por sua aceitação não aceita, que nos mostra não
as vantagens de ser invisível, mas o porquê de uma pessoa querer intimamente simplesmente não existir. E até por isso, exista de uma forma tão intensa em cada um de nós, nos mostrando que vale apena lutar pela vida e pelo que intitularam como
felicidade.
As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower, 2012 / EUA)
Direção: Stephen Chbosky
Roteiro: Stephen Chbosky
Com: Logan Lerman, Emma Watson e Ezra Miller
Duração: 103 min.