
Diretor do primeiro longametragem baiano,
Roberto Pires sempre foi um
artesão de sonhos. Seus
filmes possuem um cuidado estético interessante, tendo criado até mesmo um jogo de lentes semelhantes ao
CinemaScope. E seus temas variam entre o
thriller e a ficção científica a exemplo de
Césio 137.
Tocaia no Asfalto é um
suspense policial com viés político, mas muito bem construído em sua implicações. Tudo gira em torno do personagem Rufino, interpretado muito bem por
Agildo Ribeiro. Ele é um
matador de aluguel contratado para matar o coronel Pinto Borges, candidato a governador da Bahia. Mas, questões políticas, sociais e até religiosas vão fazer com que essa não seja uma trama tão simples assim.

O
filme já começa com uma cena impactante de
Agildo Ribeiro em um bar, encontrando um homem aparentemente estranho. O
suspense criado, a forma como
Roberto Pires vai conduzindo a situação, nos apresentando seu protagonista, é instigante, nos deixa curiosos, envolvidos antes mesmo de saber sobre o que se trata tudo aquilo. Esse prólogo fica solto em nossa mente até que, no meio do
filme, após passar mal em um cabaré, Rufino tem lembranças antigas e conseguimos ter a compreensão plena do que representou aquela cena.

Tirando essas nuanças, a narrativa é bastante linear com uma construção clássica, ainda que seja conduzida em sua tramas paralelas bem definidas. De um lado, acompanhamos o
matador Rufino desde que é contratado, se hospeda em um prostíbulo e aguarda o momento de cumprir o serviço. Por outro lado, temos o
deputado da oposição interpretado por
Geraldo Del Rey, que representa a comissão que quer desmascarar o
político Pinto Borges, mas acaba se apaixonando por sua filha. Aliás, a paixão é também o que atrapalha Rufino, que se encanta pela
prostituta Ana Paula. Porém, tanto ele quanto o nobre
deputado não deixam que o coração os faça desistir de seu dever.

A própria representação dessa dualidade tão próxima de duas classes aparentemente distintas já demonstra que
Tocaia no Asfalto não é um
filme simplista. Possui seu viés social, sua camada de denúncia, ainda que seja construído como entretenimento bem conduzido. O
bordel de Filó é um exemplo claro, onde as mulheres eram levadas pelo aliciador Luciano com promessa de emprego e casa, mas ficavam ali presas pelas dívidas que nunca eram sanadas. A rebelde Ana Paula, pela qual Rufino se encanta, era a que melhor denunciava isso. Ao mesmo tempo, a representação da classe alta, na casa do coronel Pinto Borges tinha sempre uma aura falsa, estranha.
Lançado em pleno auge do Ciclo Baiano de Cinema,
Tocaia no Asfalto é um
filme que se destaca ainda pela técnica bem empregada.
Roberto Pires sabia como poucos conduzir bem as cenas em seus detalhes. A forma como ele nos passava a emoção presente, nos envolvendo em imagens bem pensadas era de se admirar. Vide a sequência de Rufino na Igreja de São Francisco. A forma como o
matador se envolve com a questão religiosa, as informações da outra igreja fechada, o fascínio com a beleza local, toda a ambientação da missa, sua imagem rezando para ser iluminado.

Mas, não apenas essa cena nos envolve, além do prólogo já citado, temos a emboscada ao carro do deputado Ciro (
Geraldo Del Rey), a cena no cemitério Campo Santo e a cena na estação de trem. Cenas marcantes que se destacam pela composição de espaço cênico e fotografia bem pensada, que ajuda na composição da narrativa. Destaque ainda para a cena no cabaré, quando Rufino desmaia, ainda que os closes na personagem Ana Paula sejam estranhos e deslocados da cena em si.
Há uma composição metafórica da própria situação da
Bahia na época. Do coronelismo ainda em estado bruto, na luta idealista de Ciro, na tentativa de mudança de vida de Rufino, ainda que seja fiel ao seu compromisso ("Agora que já rezei pela alma dele, não tem jeito").
Tocaia no Asfalto é um marco do
cinema baiano e brasileiro. Uma das obras mais maduras de
Roberto Pires que nos apresenta um
thriller noir melhor desenvolvido que
Redenção, ainda que este também seja uma obra com qualidades explícitas.
Tocaia no Asfalto (Tocaia no Asfalto, 1962 / Brasil)
Direção: Roberto Pires
Roteiro: Roberto Pires
Com: Agildo Ribeiro, Adriano Lisboa, Angela Bonatti, Arassary de Oliveira e Geraldo Del Rey
Duração: 101 min.