
Na verdade, George Orwell fez uma crítica à ditadura socialista e todas as implicações que isso poderia trazer. "Quem controla o passado controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado", diz o início do filme. E essa é a maior questão, o controle. Por isso, um Big Brother (que na verdade não existe fisicamente), vigiando e controlando tudo o que todos faziam, criando regras estúpidas onde ninguém poderia ser capaz de pensar por conta própria e uma guerra fictícia ameaçava a vida humana.

A trama é feliz ao contar esse mundo através de dois indivíduos, Winston e Julia, dois operários que acabam se envolvendo e, por isso, se tornam perigosos. O amor também era proibido, claro. Amar é tornar as coisas pessoais demais. Todo ser humano tem que ser mesmo robotizado e tratar todos de forma igual, como uma massa fácil de manobras. Winston ainda era pior, pois tinha o hábito de escrever em seu diário, escondido todas as noites. Algo tão subversivo quanto atacar o próprio Big Brother.

Essa é uma das chaves do filme, a crítica à distorção da própria ideia de um mundo igualitário que acaba se tornando totalitário. Esse mesmo tema George Orwell já tinha tratado em A Revolução dos Bichos, quando começa a demonstrar que a união faz a força, mas que se alguns bichos resolverem ser "mais iguais" que outros, tudo se perde. Essa é uma diferença tão sutil que muitos acabaram confundindo e taxando o escritor como anti-socialista, quando, na verdade, ele era socialista democrata.

Ainda assim, tem muitos méritos, sendo um filme importante e histórico, dentro de uma perspectiva maior. Até mesmo ajudando a pensar as nuanças dos reality shows que invadem as nossas televisões, não só com pessoas vigiadas e controladas, mas até campainha que acorda as pessoas e a televisão que fala com eles, os fazendo fazer exercícios e tarefas estranhas. Podemos não estar no futuro imaginado por George Orwell, mas não deixa de haver semelhanças de controle e enganos. De uma forma ou de outra, 1984 é daqueles filmes obrigatórios.
1984 (Nineteen Eighty-Four, 1984 / EUA)
Direção: Michael Radford
Roteiro: Michael Radford
Com: John Hurt, Richard Burton, Suzanna Hamilton
Duração: 113 min.