
Como já falei na crítica sobre 1984, George Orwell era um socialista democrata. Suas ideias não eram contra o socialismo, ou sobre a divisão igualitária, mas contra o autoritarismo, principalmente baseado no que ele viu o Governo de Stalin fazer na antiga União Soviética. Um texto tão crítico como A Revolução dos Bichos, no entanto, era um prato cheio para o capitalismo querer reverter as coisas, mostrando que a ideologia dos iguais está sempre falha. E é nisso que se encontra o maior problema dessa adaptação para a televisão de 1999, dirigida por John Stepheson, distorcer a obra original.

Mas, o problema maior do filme não está na técnica. É visível que a produção distorceu a obra de George Orwell para valorizar o capitalismo. Principalmente por seu final. O final do livro é uma das falas mais impactantes da obras: "e não se podia mais distinguir os porcos dos homens". Fala essa que é inserida displicentemente no meio do filme, que traz ainda algumas reviravoltas, inclusive a chegada dos "novos donos da fazenda", que dão esperanças aos animais que sobreviveram de uma relação pacífica. Claro que os novos donos são o protótipo da família feliz norte-americana, é bom pontuar.

Porque a genialidade de A Revolução dos Bichos está exatamente nesse viés. De mostrar os pontos de vista de uma revolução aparentemente popular. A partir do sonho do Major, um porco velho e sábio, os animais tomam a fazenda onde vivem, expulsam os seres-humanos e instalam o animalismo, que está pautado em sete mandamentos bem definidos:

2. Qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo.
3. Nenhum animal usará roupas.
4. Nenhum animal dormirá em camas.
5. Nenhum animal beberá álcool.
6. Nenhum animal matará outro animal.
7. Todos os animais são iguais.
Ou seja, tomem o poder, mas mantenham sua essência. Vocês são bichos, não homens. Não se corrompam, não ajam como eles. Porém, o que George Orwell nos alerta ao criar os porcos é que o poder pode corromper o maior dos revolucionários. Tanto que coloca no nome do antagonista da história de Napoleão. Uma alusão a Stalin, claro, seu desafeto e responsável pela destruição do sonho em sua mente. Mas, também uma referência ao jovem monarca francês que terminou a Revolução Francesa com um golpe de estado e se tornou um dos maiores ditadores da história mundial. Identificando claramente Napoleão como Stalin, Bola-de-Neve só pode ser Leon Trótski, seu principal rival, que brigou pelo poder após a morte de Lenin, que na história dos bichos estaria representado pelo velho Major.

4. Nenhum animal dormirá em cama com lençóis.
5. Nenhum animal beberá álcool em excesso.
6. Nenhum animal matará outro animal sem motivo.
7. Todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais que os outros.
E nisso, A Revolução dos Bichos perde o sentido. Deixam de ser escravos dos homens, para serem escravos dos porcos. Mas, não é possível mais distinguir um do outro, como percebe a égua Quitéria. E nisso está o grande perigo de uma revolução, o que vem depois. Para que o povo tome realmente o poder, é preciso algo mais do que uma minoria que o represente. É difícil, para que a ordem se estabeleça sempre precisaremos de governantes e governados. O contrário disso, só o Anarquismo que sucumbiu em si mesmo enquanto ideologia pelo utopismo extremo de suas ideias. O auto-governo só seria possível em pessoas extremamente conscientes, responsáveis e honestas. E bastava uma não ser assim, para ruir qualquer possibilidade de dar certo.

A Revolução dos Bichos (Animal Farm, 1999 / EUA)
Direção: John Stepheson
Roteiro:Director: Alan Janes
Com: Pete Postlethwaite, Alan Stanford, Caroline Gray, Gail Fitzpatrick, Julia Ormond (voz), Kelsey Grammer (voz), Ian Holm (voz), Julia Louis-Dreyfus (voz)
Duração: 91 min.