
O filme é baseado na HQ de Julie Maroh que leva o mesmo nome do título em português. Ao contrário do título original do filme que se chama A Vida de Adele. Ambos, neste caso, resolvem bem a trama. De fato, acompanhamos a vida de Adele por toda a projeção, nunca desgrudamos dela, não há cena sem a sua presença. E o azul é a cor do cabelo de Emma que chama a atenção de Adele, assim como é a cor predominante na direção de arte do filme. E por ser uma cor fria, chamá-la de a mais quente não deixa de ser uma antífrase interessante.

Ela começa o filme sendo paquerada por um garoto da turma, nitidamente não sente prazer com ele, apenas se deixa levar. Depois que vê Emma na rua, é assediada por uma colega e parece gostar. Poderíamos dizer que seja homossexual ou esteja muito curiosa com esse mundo. Porém, depois, seu desejo parece não ser por mulheres, e sim por Emma. Tanto que posteriormente, é com homens que volta a se relacionar.

Ainda assim, Abdellatif Kechiche é hábil na construção de sua obra. Há detalhes interessantes como o azul predominante já citado. Até a amiga de Adele que a beija na escada tem unhas azuis, por exemplo. Da mesma forma que a própria Adele começa a usar bastante a cor. Ela está também nos cenários, nos detalhes das portas, no tom da luz em momentos chaves. Um jogo de símbolos imagéticos muito melhor do que a explicitação do tema, quando ele monta a primeira cena de sexo das duas com uma parada gay.

De qualquer maneira, Azul é a Cor Mais Quente não é um filme sobre homossexualidade. É uma história de uma paixão intensa, quase uma obsessão, que nos envolve e cria empatia, mesmo com todas as reveses. O problema maior fica por conta da duração. Não que seja cansativo, curiosamente acaba sendo fluído, porém, há uma sensação de excesso, de ir além do que precisava, de uma tentativa de esticar o momento. Não era preciso três horas para contar esta história.
Um filme belo, bem cuidado, com boas atuações, mas que traz os seus excessos e até mesmo um preconceito velado.
Azul é a Cor Mais Quente (La vie d'Adèle, 2013 / França, Bélgica e Espanha)
Direção: Abdellatif Kechiche
Roteiro: Abdellatif Kechiche e Ghalia Lacroix
Com: Léa Seydoux, Adèle Exarchopoulos, Salim Kechiouche
Duração: 179 min.