
De vez enquanto é bom revisitar
filmes passados.
Forrest Gump é desses clássicos recentes que já marcaram época, seja pela história, pela atuação de
Tom Hanks ou pelas brincadeiras entre a ficção e o real. Ah, e como curiosidade é também o primeiro filme de
Haley Joel Osment, que se tornou pequena celebridade com
O Sexto Sentido.
Normalmente acho esses complementos nos títulos nacionais uma bobagem. Uma espécie de foto legenda tipo Shine - Brilhante. Mas, apesar de desnecessário, o complemento
O Contador de Histórias para
Forrest Gump é bastante propício. Porque é isso que o personagem de fato é. O roteiro é uma espécie de brincadeira com aquele estereótipo do "contador de causos", como diz no interior, que sempre aumenta um ponto, exagera algum detalhe, mistura
fantasia com realidade.

Mas, no caso de
Forrest não é bem assim. Ele é um ingênuo, com um Q.I. abaixo da média, incapaz de ludibriar pessoas, tudo para ele é o que é. E ele passou por tudo em sua vida. São tanta histórias absurdas que seria difícil mesmo de alguém acreditar. Não por acaso, muitos dos seus ouvintes no banco da praça saem irritados ou apressados. Mas, ao mesmo tempo que o realizadores brincam com a
fantasia, há uma verdade no personagem que contagia os de coração aberto, como a senhora que fica com ele até o final.
Robert Zemeckis dá ao
filme um tom de fábula. Tanto que começa e termina com uma pena voando pelo céu. Isso traz também uma espécie de simbologia para o personagem que parece "levado pelo vento". Até por sua inteligência limitada,
Forrest não tem capacidade de escolher caminhos, tomar decisões, ele simplesmente segue o fluxo. E quis o destino que ele sempre estivesse no lugar certo na hora certa.

Através dessa premissa, o texto de
Eric Roth, muito irônico brinca com tudo. Com a dança de Elvis Presley, com a Ku Klux Klan, com os diversos presidentes dos Estados Unidos, com John Lennon, com pessoas que simplesmente seguem outras como gado, com a cultura pop, com o movimento hippie, com a Guerra do Vietnã. A partir deste último ele ainda faz uma construção irônica incrível com a função do exército. Já que
Forrest se torna um soldado exemplar, seria uma instituição para idiotas? "Você é um gênio,
Gump", grita o comandante.

A montagem do
filme e os efeitos que misturam imagens reais com o encenado é impressionante. Tudo é muito cuidadoso e parece mesmo que
Tom Hanks está ali inserido nas cenas, interagindo com as imagens. Há também um bom ritmo de passagem, ligando cenas paralelas com recursos como a televisão, ou sequências de passagem do tempo irônicas como as de Bubba falando sobre camarão no exército. Aliás, falando em Bubba as inserções de marcas também é muito bem feita, tornando tudo parte da narrativa.
Agora, claro que muito do sucesso de
Forrest Gump se deve à interpretação de
Tom Hanks. O ator consegue nos passar a verdade desse personagem bobo sem se tornar
over. Não há um estereótipo do abestalhado, é possível enxergar a particularidade daquele ser, que é movido pelo amor de duas mulheres fortes. Sua mãe, vivia pela também ótima em cena
Sally Field, e sua eterna paixão Jenny, vivida por
Robin Wright. E temos ainda a boa atuação de
Gary Sinise como o tenente Dan Taylor.
Forrest Gump, o contador de histórias é um
filme divertido, inteligente e agradável de acompanhar. Nos sentimos um pouco ali, ao lado dele, sentados no banco, ouvindo-o, tal qual uma criança ouvindo os pais, porque o ser humano é também movido por isso. Pelo fascínio de conhecer boas novas histórias.
Forrest Gump, o Contador de Histórias (Forrest Gump, 1994 / EUA)
Direção: Robert Zemeckis
Roteiro: Eric Roth
Com: Tom Hanks, Sally Field, Robin Wright, Gary Sinise, Mykelti Williamson, Haley Joel Osment
Duração: 142 min.