
Olho Nu
O título já traz uma simbologia interessante. Se os olhos são a janela da alma, um olho nu é algo como um artista completamente exposto. E é assim que Ney Matogrosso parece estar no documentário de Joel Pizzini, entregue de corpo e alma à sua própria história. Ainda que alguns assuntos sejam poucos tocados.

Isso traz um caráter muito pessoal e intimista ao filme. Ainda que ele seja construído por diversas imagens de arquivo, foge do padrão comum a esse tipo de documentário, mesclando com imagens produzidas de Ney em sua residência, sempre buscando a poesia do momento, as reflexões, a rotina do cantor. E, claro, tudo isso é costurado com muita música.
Talvez isso, que é o forte para os fãs do cantor, seja também um "calcanhar de Aquiles", já que, muitas vezes, o filme procure preparar a entrada da música com algum comentário didático, quase uma foto legenda. Como quando ele fala "se tiveram a coragem de jogar uma bomba no Japão, eu não duvido de nada da humanidade", seguido de um mini-clipe de Rosa de Hiroshima.

Ainda assim, traz uma construção rica das fases do cantor, suas principais músicas e sua característica transgressora de uma maneira leve e criativa. Tudo condiz com a própria alma do artista, que nunca quis ser comum. Há performance em tudo que Ney Matogrosso faz. E isso é interessante.
Sua vida pessoal, no entanto, parece deixada de lado. Como o filme é construído sob o seu ponto de vista, acredito ter sido uma escolha ou exigência do próprio. Ainda que homossexual assumido, não há citações a relacionamentos, mesmo com Cazuza que aparece discretamente em algumas imagens de arquivo. Como Ney não permitiu que lhe retratassem no filme sobre o líder do Barão Vermelho, acredito também que seja um tema que ele não queria ver explorado.
De qualquer maneira, Olho Nu cumpre bem a sua função de desbravar a alma desse artista que assume que antes queria transar com toda a plateia e hoje, gostaria apenas de acariciá-la. Um homem repleto de energia e criatividade, que gera um filme igualmente intenso. Talvez, pudesse ser apenas um pouco mais curto, mas é um belo registro.
Olho Nu (2013 / Brasil)
Direção: Joel Pizzini
Duração: 101 min.
Cauby - Começaria tudo outra vez
A sensação que fica após a exibição do documentário sobre Cauby Peixoto é que poderia ser muito mais. Há bastante material nas mãos do diretor Nelson Hoineff, mas lhe faltou, talvez, um roteirista para dar um guia nisso tudo.

A começar pela divisão em capítulos que não faz muito sentido, nem segue um padrão possível. Ele simplesmente lança temas, uns que duram meia hora, outros poucos minutos, sem construir um conjunto plausível, seja cronológico, ou mesmo temático. Há também questões soltas como a ex-secretária Lydia que é citada, mas não tem sua história desenvolvida. Ficamos sem saber porque o pesquisador a chamou de louca, por exemplo.
O garoto fã é outro tema mal explorado. Extremamente curioso ver um garoto tão jovem e tão fã de Cauby. Mas, o que seria uma pérola condutora no documentário se torna extremamente frágil, com encenações tolas e um clímax que se esvazia, inclusive porque ficamos muito tempo sem vê-lo em tela, quase nos esquecendo da construção inicial de sua trama.

Há flagras interessantes também como ver a transformação do cantor quando a cortina sobe e ele começa a cantar. Antes quase aéreo, frágil, o vemos se transformar em uma pessoa forte, segura de si e dona do palco. Momentos que poderiam ser melhor explorados.
Como registro e para demonstrar um pouco da dimensão do artista que Cauby Peixoto foi e ainda é, o documentário cumpre seu papel. Porém, enquanto filme, fica devendo e muito. Principalmente com todo o material que tinha em mãos.
Cauby - Começaria tudo outra vez (2013 / Brasil)
Direção: Nelson Hoineff
Duração: 90 min.