
Donato é um salva-vidas de praia em Fortaleza, no Ceará, e vive nessa rotina. Dentro d'água ele é como um peixe, ou o Aquaman, como chama seu irmão. Ali ele encontra paz, silêncio e sentido. Na terra ele se sente literalmente um peixe fora d'água, ainda que tenha o irmão para brincar e, posteriormente, Konrad para amar.

Essa esquemática divisão ajuda Karim e Felipe Bragança a contar essa história pela etapas de vida e transformação de Donato. Mas, por vezes, parece esquemática demais, rompendo de forma abrupta a narrativa que vinha sendo construída. Ao mesmo tempo, faz sentido ao pensarmos em uma vida comum, onde nada é planejado e estruturado, precisando de recortes para chegar a algo.

E falo isso não condenando ou achando ruim, apenas compreendendo o assombro de alguns. Mas, dentro da estrutura do filme, faz todo o sentido. O ponto principal a ser desenvolvido não é esse, e sim, a sensação de não pertencimento de Donato. Ainda que este fato tenha algo a ver com isso, não é exclusivo. É interessante perceber, por exemplo que ele sempre busca uma válvula de escape onde possa se sentir em paz, seja o mar no Brasil ou a boate na Alemanha.

E nessa relação à dois, existe o terceiro polo, que é Ayrton, o irmão de Donato. Mesmo que pareça que ele seja esquecido em algum ponto da trama, é interessante a forma como é resgatado e a solução para uma certa questão entre os irmãos relacionada a praia e água.
Praia do Futuro é um filme belo, que busca o ser em sua essência querendo passar verdade para a tela. Tem problemas em algumas escolhas que nos fazem sair da narrativa em alguns momentos para raciocinar sobre o porquê daquilo. Mas, talvez também isso seja a vontade de Karim. Não é seu melhor filme, mas, sem dúvidas, é digno de sua filmografia.
Praia do Futuro (Praia do Futuro, 2014 / Brasil)
Direção: Karim Aïnouz
Roteiro: Felipe Bragança, Karim Ainouz
Com: Wagner Moura, Clemens Schick, Jesuita Barbosa, Savio Ygor Ramos
Duração: 106 min.