
O título já diz a temática principal de Causa e Efeito. Tudo nessa vida tem um motivo, por mais que nossa percepção não compreenda. E toda atitude gera uma consequência. Simples assim. Não é questão de castigo. Sempre uso a metáfora da bola na parede. Ao jogá-la, se ela rebate e cai em sua cabeça, foi culpa da parede?
O roteiro acompanha a trajetória de Paulo, um ex-policial amargurado pela morte da mulher e do filho, que se torna matador contratado por um político corrupto. Mas, sua vida vai mudar ao cruzar com Madalena, uma ex-prostituta jurada de morte por ter engravidado do mesmo político.

A começar pela cena de abertura, que poderia ser sensacional, mas se perde em diversos detalhes, principalmente na banda sonora, mas guardemos isso. A construção dramática se baseia em uma cena familiar clássica, tipo comercial de margarina, com Paulo sentado no jardim observando sua esposa e filho brincando de bola na rua. Em paralelo vemos um homem ao volante bebendo e fumando, visivelmente transtornado. Clichê: bebida e cigarro símbolos de vício de pessoas "más", ou no mínimo, "obsediadas". Mas, tudo bem. A cena é toda construída em câmera lenta, para criar o clima de suspense e expectativa para o óbvio: o atropelamento.

O roteiro então pula no tempo e já vemos Paulo um ano depois, lutando contra o motorista e a indústria farmacêutica, porque o filho morreu no acidente, mas a esposa morreu em decorrência da má administração de remédios. Isso fica tão mal explicado que só serve mesmo para introduzir o personagem de Henri Pagnoncelli, o Deputado Gustavo que vai aliciar Paulo para o crime. Essa relação também fica mal explicada no roteiro, já que a primeira missão seria matar um outro político e isso só é visto dois anos depois dele em ação.
Mas, como disse, esquecendo tudo isso e concentrando-se em Paulo após pegar Madalena e se esconder em uma cidadezinha do interior onde seu tio mora, tudo melhora. Ainda aí temos o clichê do nome da moça ser o da mulher bíblica popularmente conhecida como prostituta, entre outros detalhes. Na cidadezinha, vamos ter contato maior com o trio religioso que tem algumas cenas interessantes. O tio de Paulo que é espírita, um pastor e um padre que são amigos e vivem na praça jogando cartas.

De qualquer maneira, a trama de Paulo e sua família, com revelações de outras vidas tem seus bons momentos. Pena que a escolha da resolução tenha sido tão fantasiosa e exagerada nos deixando uma última impressão ruim. Agora, ao contrário do que vi muitos criticando, as atuações não são das piores, cumprem o papel sem grande prejuízos, mas também sem destaques.
Mesmo com todos os problemas técnicos, Causa e Efeito acaba me dando esperanças de que com o exercício os produtores espíritas consigam fazer filmes que agradem a todos. Até hoje, o melhor do "subgênero" foi dirigido por um ateu (Daniel Filho em Chico Xavier). Talvez se conseguirem se preocupar menos com a questão doutrinária e mais com a linguagem cinematográfica, consigam chegar em um meio termo. Pois é possível passar a mensagem sem precisar ser tão didático ou explícito. Assim como os fundamentos principais da linguagem precisam ser respeitados e bem executados. Afinal, ainda é cinema.
Causa e Efeito (2014 / Brasil)
Direção: André Marouço
Roteiro: André Marouço
Com: Matheus Prestes, Luiz Serra, Rosi Campos, Henri Pagnoncelli, Naruna Costa
Duração: 105 min.