
Henrique Dantas já havia demonstrado sua veia documentarista em seu primeiro longa-metragem Filhos de João. Sua origem como diretor de arte também se reflete no cuidado com sua obra, que é construída em detalhes. E em Sinais de Cinza isso se maximiza de maneira impressionante.

Sinais de Cinza traz imagens dos filmes de Olney, imagens do sertão e depoimentos de cineastas, pesquisadores e familiares. Seria um documentário clássico se não fosse a composição estética que Henrique Dantas arquiteta de maneira minuciosa. A começar pela forma como vai conduzindo a história, misturando cenas de filme, depoimentos e textos do próprio cineasta, que mais do que contar, nos imerge no clima e alma do artista.
Tal qual Olney quando fazia seus trabalhos em Feira de Santana, cidade do interior da Bahia, Dantas projeta os filmes em paredes, criando uma composição especialmente bela e emocionante. Na primeira parte, projetados em casas simples, como as do sertão. Na segunda parte, emulando porões da ditadura com cadeiras e cordas que representam as torturas. É impressionante como o mesmo recurso transposto de ambiente e com variações na trilha nos dão outro tom e sensações múltiplas.

Extremamente bem feito, bem conduzido e bem costurado, o filme impacta ainda pelo resgate desse cineasta quase esquecido pela população brasileira, mesmo entre cinéfilos e intelectuais. O diretor que encantou Orson Welles, como é dito no documentário, hoje tem seus quatorze filmes se perdendo pelo tempo, sem um projeto de restauração. Olney era um homem visionário, que conseguiu fazer cinema em uma cidade pequena como Feira de Santana, em uma época em que mesmo a capital do estado, Salvador, tinha dificuldades de produção. Ele falava de sua gente e seus problemas com a simplicidade dos grandes artistas, e o pensamento de quem queria mudar o mundo.

E Sinais de Cinza expressa isso de maneira criativa, não apenas nos contando essa sensação, mas nos fazendo sentir aquela época de uma maneira intensa. Essa é a magia do cinema, que, quando acontece, nos emociona e empolga. É interessante, por exemplo, ver imagens de militares marchando para trás, simbolizando o retrocesso, ou cercas de arames farpados, indicando a separação da população pobre e classe média no sentimento em relação ao golpe.
Sinais de Cinza é um filme intenso que merece maior destaque nacional. Não apenas por sua construção cuidadosa e pelo valor estético que a obra alcança, mas também pela importância histórica, pelo pensamento crítico proposto e pelo encontro de cineastas em busca do aprimoramento artístico. Henrique Dantas demonstra amadurecimento em seu segundo longa-metragem e a gente já fica na expectativa pelo o que vem depois.
Filme visto na IX edição do CineFuturo / 2015.
Sinais de Cinza: A Peleja de Olney Contra o Dragão da Maldade (2014 / Brasil)
Direção: Henrique Dantas
Roteiro: Henrique Dantas
Duração: 87 min.