
Este texto talvez traga muitos detalhes da obra que alguns podem considerar spoilers. Mas, acredite, assistir é que é a experiência, não tem como traduzir em palavras. De qualquer maneira, é mais aconselhável que leia após ver o filme para discutirmos e trocarmos ideias.
Antes da projeção iniciar, temos o aviso que algumas falas não possuem legenda a pedido do próprio diretor. "Esqueça as palavras desperdiçadas", diz uma personagem mais a frente. Eu diria, esqueça a tentativa de querer explicação para tudo, não é necessário. Nunca foi, ainda mais nos filmes de Godard que sempre utilizou de metáforas e ironia para criar, recriar, pensar e criticar o cinema. E a compreensão da vida humana, das relações e das comunicações é uma das questões expostas aqui.

São muitos os questionamentos e muitos os pensamentos jogados em tela, sem muitas explicações ou aprofundamento. Conseguimos pescar coisas como o fato do homem estar sempre sentado no vaso sanitário quando fala em igualdade, e ele ainda reforça que é nesse momento em que "todos somos iguais". Ou a palavra solta quase displicentemente pela mulher ao explicar que na Rússia, câmera é prisão. E mais interessante ainda quando a mulher conta a história da criança na câmara de gás querendo entender o motivo daquilo e a explicação vem sem legenda.

E muito de Adeus à Linguagem é uma experimentação do formato. Começa de maneira simples com imagens em distâncias focais diversas para dar a dimensão de profundidade, como um navio ao fundo e um toco em primeiro plano. Ou o homem sentado no banheiro, seguido da mulher em pé na porta e um cabide ainda mais próximo da tela. Mas, Godard vai além separando as duas câmeras que dão a ilusão da tridimensionalidade e fundindo imagens que a princípio se tornam confusão, mas se você fechar um olho e alternar abrindo e fechando cada um deles, poderá acompanhar as duas imagens simultâneas, por exemplo.

O som é outra questão instigante, muitas vezes parece não mixado de propósito, mas, no geral, a sensação que passa é de que estamos ouvindo a tradução do som ambiente, também com a perspectiva da distância. Isso nos dá ainda mais a sensação de imersão naquelas imagens e a certeza de que só o ambiente da sala de cinema pode proporcionar a total experiência dessa obra.
Adeus à Linguagem é uma provocação que já começa no título da obra. É uma experiência, um convite ao teste. Sem compreender isso, ou entrar no espírito proposto, a viagem simplesmente não funciona. Se você está em busca de sentido ou uma história para se entreter, melhor não embarcar nessa. Mas, se está disposto a experimentar mais essa arte do jovem apaixonado cinéfilo de 84 anos, é uma viagem incrível.
Adeus à Linguagem (Adieu au langage, 2015 / França)
Direção: Jean-Luc Godard
Roteiro: Jean-Luc Godard
Com: Héloïse Godet, Kamel Abdeli, Richard Chevallier
Duração: 70 min