
Totalmente filmado em scope e preto e branco, chama a atenção não apenas pela impressão da imagem em si. Mas, pela composição das cenas, pelos enquadramentos e pelas escolhas de planos parados e quase nenhum movimento de câmera. Tudo isso colabora para o efeito de opressão que a trama quer passar, da cidade de concreto que é São Paulo e o amor e ódio que isso instiga.

Prestes a ser pai e iniciando um ambicioso projeto, o arquiteto irá sentir o baque de descobrir no terreno em que a obra se inicia, um cemitério clandestino. Pior. O terreno é de sua família, fazendo com que o peso daquela descoberta caia sobre seus ombros. Calado, mas sem esquecer o problema, João Carlos irá enfrentar a perseguição psicológica de seu mestre-de-obras interpretado por Júlio Andrade. O talento dos dois atores nos dará a possibilidade de cenas intensas.

Voltando a fotografia, podemos destacar ainda a angústia criada com as penumbras e os contrastes de sombra e luz que vemos em diversas cenas, principalmente nas cenas da igreja, que pode trazer também o simbolismo da religiosidade e da culpa diante dos acontecimentos. Por fim, tem também os efeitos de janela, como quando vemos as cenas por uma fresta, tendo o restante da tela preta em uma composição instigante que nos dá a sensação de não ver o todo.
Obra é um filme que nos envolve com pouco. Ou melhor, com o muito que nos evoca diante daquelas imagens aparentemente simples. Tal qual a cidade de São Paulo, essa metrópole que fascina e assusta, encanta e irrita por todas as possibilidades e sufocamento que pode nos proporcionar.
Obra (Obra, 2014 / Brasil)
Direção: Gregório Graziosi
Roteiro: Gregório Graziosi
Com: Irandhir Santos, Júlio Andrade, Marku Ribas, Lola Peploe
Duração: 80 min.