
A história, como a maioria das pessoas já deve saber, gira em torno do cientista Reed Richards que aqui desenvolve uma máquina de teletransporte capaz de acessar uma outra dimensão e, com isso, ele e seus companheiros de pesquisa sofrem um acidente que causa uma mutação genética, dando-lhes super poderes e muitos problemas. Mas, o roteiro desenvolvido por Simon Kinberg, Jeremy Slater e Josh Trank não segue exatamente o caminho óbvio, tentando construir uma jornada inicial de preparação do herói que acaba não funcionando tão bem em cena, principalmente por causa da sua economia narrativa.

Estas passagens de tempo, no entanto, já são um problema. São duas durante o filme, a primeira que passa da infância para a adolescência é mais suave, ainda que pudesse ser melhor trabalhada, já a segunda é extremamente problemática. A sensação que dá é que os roteiristas pensaram "caramba, já estamos com mais de uma hora de filme. Então, dá uma elipse e diz que passou um ano". O drama que eles vinham construindo é repentinamente resumido para que possamos passar à ação. Essa quebra compromete o filme inteiro, principalmente em sua parte final com um desfecho apressado e quase sem sentido.

De qualquer maneira, o jovem elenco consegue dar conta do recado e criar empatia com o público. Nos importamos com eles, sentimos os seus sonhos desde o início. Compreendemos o desejo de ser reconhecidos quando quase perdem o projeto. E, principalmente, sentimos a dor e peso das consequências do acidente que nos parecem extremamente realistas devido ao tom que o filme imprime em sua primeira parte. Não é simplesmente uma aquisição mágica. Há ali um problema crônico, sério, extremamente dramático. Estamos lidando com pessoas e não com super-heróis.

Pior do que isso, a curva dramática gera um tobogã estranho, pois acompanhávamos um grupo de pessoas que queriam realizar um sonho e depois de um acidente precisam reencontrar uma forma de viver enquanto esperam por uma cura. De repente, eles precisam salvar o mundo em uma sub-trama apressada que vai do nada ao lugar nenhum em frações de segundos, sem tempo para ser trabalhada. Nem o vilão Victor Von Doom, nem o seu plano, muito menos a reação do Quarteto. Vemos, então, uma luta genérica sem grandes emoções.
O Quarteto Fantástico se torna, então, um filme que poderia ter sido. Ainda que tenham bons efeitos especiais, bons atores e um bom começo, se perde por não definir o seu caminho de maneira corajosa. Sem virar um filme de introdução e criação de heróis, nem um filme de super-heróis. Quem sabe na próxima.
Quarteto Fantástico (Fantastic Four, 2015 / EUA)
Direção: Josh Trank
Roteiro: Simon Kinberg, Jeremy Slater, Josh Trank
Com: Miles Teller, Kate Mara, Michael B. Jordan, Jamie Bell, Toby Kebbell, Reg E. Cathey
Duração: 100 min.