
Val é uma empregada doméstica como não se vê mais. Dedicada à família que trabalha em tempo integral, mora no quarto dos fundos na casa dos patrões, cuida de tudo, está sempre submissa se colocando abaixo deles, cuida do filho do casal como se fosse seu, enquanto sua filha foi criada por outros em Pernambuco. Tudo muda quando essa mesma menina, já adolescente, vai à São Paulo para prestar vestibular de arquitetura na FAU. E o contraste de postura submissa da mãe e impositiva da filha, vão desestabilizar todo o sistema imposto.

Diversas cenas nos mostram isso de maneira sutil ou explícita. Como quando Carlos está mostrando a piscina para Jéssica e manda Val acender a luz, ou quando eles estão almoçando e a menina vai ajudar a mãe a tirar a mesa e ele não deixa dizendo que Val está ali pra isso. Ou ainda nas cenas em que compõe a questão do conjunto de xícaras e garrafa de café que acaba simbolizando muito da relação e posição das peças ali expostas, tal qual o "sorvete do Fabinho", que os patrões oferecem por educação "só porque tem certeza de que eles não aceitarão", segundo os ensinamentos da própria Val.

A inversão dos papéis, a repetição dos padrões tudo vai sendo construído de uma maneira bem interessante. Jéssica é essa nova classe, que, instruída, entende que não precisa se humilhar, nem se considerar um ser humano inferior. Trabalhar em casa de outros é uma profissão como outra qualquer, vide os direitos que são conquistados a cada dia, inclusive hora de serviço. Quebrando essa mistura de família e serviço, a situação fica mais autêntica e fácil de lidar. Sem a hipocrisia do "é como se fosse da família". E Anna Muylaert joga essas questões de uma maneira leve, nos fazendo perceber a postura contrária de mãe e filha, gerações criadas de maneira diferente, com outras perspectivas da vida.

Não é exagero dizer que Que Horas Ela Volta? é um filme de destaque no cenário nacional atual. Temos outras belas obras recentes como Obra ou O Último Cine Drive-in, mas este acaba nos pegando pela quantidade de simbologias e representações do momento de transformação das classe no nosso país. E tudo exposto de uma maneira inteligente, sensível, sem rótulos ou culpas. Apenas um ponto de vista de algo que estamos tão acostumados a ver o outro lado.
Que Horas Ela Volta? (Que Horas Ela Volta?, 2015 / Brasil)
Direção: Anna Muylaert
Roteiro: Anna Muylaert
Com: Regina Casé, Helena Albergaria, Michel Joelsas, Lourenço Mutarelli, Camila Márdila
Duração: 112 min.