
É algo raro atualmente diante do bombardeio de informações ainda mais para um candidato ao Oscar, mas vi o filme sem saber muito dele, nem o trailer assisti e, assim, a experiência acabou sendo ainda mais intensa. Recomendo àqueles que queiram sentir o mesmo em expectativa e surpresa não ler a crítica agora e retornar apenas após assistir ao filme. De qualquer maneira, não há aqui spoilers que já não estejam na divulgação do mesmo.

O velho Nick é um seqüestrador que os mantém ali em cativeiro e o que passa na televisão é parte do mundo real que existe do outro lado da parede. Como nasceu ali, Jack só conhece aquele quarto como mundo e muito das questões explicadas por sua mãe soam estranhas demais. Só que mesmo confuso, ele ainda terá uma missão, para depois reaprender a viver nesse maravilhoso mundo desconhecido.

Ao mesmo tempo, não podemos desconectar da compreensão de mundo que temos e nos angustia saber daquela situação, do seqüestro, do cativeiro, da forma como Joy serve sexualmente a Nick, do medo que ela sente do homem também querer mexer com o filho, do desespero e da falta de perspectiva diante dos planos possíveis de fuga.
Já na segunda parte, o drama ganha outras dimensões. Primeiro pela óbvia ampliação de mundo de Jack. Tudo é assustadoramente grande para ele. A força do Sol é intensa demais, as paisagens são assustadoras, os prédios imensos, as pessoas vistas com desconfiança. Estamos descobrindo o mundo com seus olhos e tudo ganha mesmo outra dimensão cinematográfica.

É tudo construído com muita delicadeza e o que mais impressiona não é nem a atuação de Brie Larson, apesar de ótima, mas do garoto Jacob Tremblay que consegue construir uma maturidade emocional impressionante em cada gesto e olhar. São cenas fortes em que ele se entrega de uma maneira impressionante, nos emocionando tanto em tela quanto em som, quando sua voz over narra sua experiência intensa com a ingenuidade de uma criança.
O Quarto de Jack é daqueles filmes que nos impacta e fica conosco por um bom tempo. Através de um tema já explorado por diversas vezes, mas que ao trazer o viés do olhar infantil se torna ainda mais intenso, doloroso, mas também belo. Porque nos dá um novo ponto de vista, a inocência de não compreender a maldade e apenas se entregar a novos conhecimentos.
O Quarto de Jack (Room, 2016 / EUA)
Direção: Lenny Abrahamson
Roteiro: Emma Donoghue
Com: Brie Larson, Jacob Tremblay, Sean Bridgers, Joan Allen, William H. Macy, Tom McCamus
Duração: 118 min.