
Há muitas questões em Assim que Abro Meus Olhos, filme de estreia da diretora Leyla Bouzid. Há questões políticas, a situação da mulher no mundo árabe, ideais de juventude, a música, o sonho de ser artista. Mas o que parece fisgar mesmo é a relação mãe e filha.
A própria sinopse oficial da obra dá destaque a essa conturbada relação entre a jovem Farah e sua mãe Hayet em uma Tunísia pré-revolução. O governo de Ben Ali está em crise, no verão de 2010. Meses depois, um levante que seria chamado de Revolução de Jasmim retiraria o ditador do poder. Enquanto isso, no entanto, qualquer manifestação política é perigosa e é isso que Hayet tenta fazer sua filha entender, sem sucesso.

A rotina de Farah, cantora de uma banda de protesto, guia a trama. Muitos momentos são dedicados aos números musicais, seja em ensaios ou em shows propriamente ditos. Música com ritmo envolvente e letras que denunciam a situação do país, protestando contra as injustiças, falta de oportunidade e de liberdade. Fazendo assim com que os números musicais não sejam apenas alegorias, mas contribuam de fato para a narrativa.

O filme traz um tom sépia na fotografia que colabora para a atmosfera da trama. Uma mistura de velho, novo e artístico. Uma construção poética e melancólica de tempos difíceis, mas cheios de esperança e vontade de mudar o mundo. E é louvável que seja uma mulher a puxar essa movimentação. Em um país onde elas não parecem ter voz, é Farah quem dá a cara a tapa, cantando as canções da banda.
Assim que Abro Meus Olhos é um filme envolvente. Acompanhamos a trajetória de Farah em um turbilhões de emoções, como a própria personagem. Entre bons e maus momentos, sofremos e vibramos com ela. E acabamos compreendendo a jornada de sua mãe.
Assim que Abro Meus Olhos (À peine j'ouvre les yeux, 2016 / Tunisia)
Direção: Leyla Bouzid
Roteiro: Leyla Bouzid, Marie-Sophie Chambon
Com: Baya Medhaffer, Ghalia Benali, Montassar Ayari
Duração: 102 min.