
Vencedor do Festival de Veneza 2017, com treze indicações ao Oscar e muito burburinho em torno do nome de Guillermo del Toro, que já teve até acusações de plágio. Ainda que Três Anúncios para um crime e Lady Bird estejam bem cotados, A Forma da Água é o filme da temporada de premiações. Uma fábula muito bem dirigida e com um cuidado na direção de arte que enche os olhos, ainda assim, não é a obra-prima que parece.
O romance entre uma princesa "sem voz" e um estranho príncipe-criatura, poderia ser a premissa da obra. Uma espécie de inspiração em King Kong, já que a "forma" vem da Amazônia onde era cultuado como deus para ser utilizado pelos Estados Unidos na corrida espacial, durante a Guerra Fria. Uma metáfora dos excluídos também, já que a jovem é muda e órfã, sua amiga é negra, seu amigo é gay. E ainda tem um espião russo envolvido.

Elisa Esposito, por outro lado, tem sua rotina sem graça, que em alguns aspectos lembra a rotina do protagonista de Beleza Americana, onde o único prazer diário é quando se masturba no banho matinal. Mas que, ao conhecer o ser aquático no laboratório onde trabalha como faxineira, ganha um novo frescor. Sally Hawkins é extremamente feliz em construir essa delicadeza da moça muda, que ama musicais e é sensível o suficiente para compreender a alma daquele estranho ser.

Com uma direção de arte muito bem cuidada, o cineasta constrói o seu olhar pelo universo fílmico de maneira envolvente, aprimorando o estranhamento da atmosfera do cenário ao mesmo tempo em que nos sensibiliza para sua trama de amor. Não apenas o amor entre a faxineira e a criatura, mas entre ela e o amigo ou ela e a colega de trabalho, sempre cuidadosos uns com o outros.
O filme mistura programações de efeitos de diversos gêneros, desde o terror, passando pelo melodrama, espionagem, comédia e até mesmo musical. Tudo construído de maneira harmônica e envolvente, sendo prazeroso de acompanhar.
Uma jornada visual incrível, com uma boa atmosfera construída e uma clara intenção política no tema. Um filme com a cara de Guillermo del Toro. Ainda assim, o roteiro parece frágil em algumas escolhas, não aprofundando suas personagens quanto poderia para deixá-lo na superfície da fábula e suas metáforas.
A Forma da Água (The Shape of Water, 2017 /EUA)
Direção: Guillermo del Toro
Roteiro: Guillermo del Toro, Vanessa Taylor
Com: Sally Hawkins, Octavia Spencer, Michael Shannon, Richard Jenkins, Michael Stuhlbarg
Duração: 123 min.