
Sonhos. Encontros de almas. Um cervo e uma cerva passeiam por uma paisagem de neve, buscam comida, buscam um ao outro para sobreviver ao frio e à solidão. Essas cenas que literalmente perpassam a trama de Corpo e Alma são mais que metáforas, acabam demonstrando a essência de seus protagonistas.
Endre e Mária. Ele parece cansado, sem mais acreditar no sentido das relações humanas. Ela, autista, nunca soube lidar muito bem com isso. A partir de olhares instigados, vão se aproximando. E quando descobrem que seus sonhos (literais e não desejos) são iguais, percebem que há uma ligação maior do que eles próprios supunham. Relacionar-se torna-se quase uma obrigação, e como toda obrigação incomoda e assusta.

A neve em que os cervos passeiam durante o sonho dos dois também traz esse cenário sempre frio, pouco convidativo, o que não deixa de ser curioso, já que os animais parecem seguir em seus instintos uma aproximação. Há uma busca do outro pelo olhar, pelo cheiro, pelas atitudes que demonstram que, no fundo, ambos não querem estar sós.

Ainda assim, parece que tudo no filme é tão calculado nessa concepção perfeita que não consegue acessar as emoções. Nem mesmo uma cena extremamente forte em determinado momento consegue impactar a ponto de nos envolvermos com aquelas personagens. Pode ser exatamente a intenção da diretora, mas a sensação é que somos meros espectadores daquela trama, o que torna a experiência mais difícil.
De qualquer maneira, Corpo e Alma é uma obra bem realizada que chama a atenção em sua proposta de apresentar um inusitado caso de amor.
Corpo e Alma (Teströl és lélekröl, 2017 / Hungria)
Direção: Ildikó Enyedi
Roteiro: Ildikó Enyedi
Com: Géza Morcsányi, Alexandra Borbély, Zoltán Schneider
Duração: 116 min.