
O filme é panfletário da causa negra, não há como negar. Joel Zito Araújo sempre foi um ativista da causa, pesquisando e produzindo obras sobre o racismo velado que existe no Brasil. Sua obra de maior impacto foi resultado de anos de pesquisa sobre a participação do negro nas telenovelas brasileiras. A Negação do Brasil virou documentário e livro, mostrando que cabe ao negro apenas papéis secundários como escravo, empregado ou marginal. Como grande pesquisador de telenovelas era natural também que seu primeiro filme
O filme é sensível e mostra o reencontro de duas irmãs após 45 anos. Podendo retratar o drama de qualquer mulher, mostra as consequências da escravidão e do racismo de forma sutil naquela sociedade. Após a morte do pai, Cida e Jú têm que lidar com o rancor dos acontecimentos passados e reencontrar o amor mútuo em família. O roteiro é bem construído e vai dosando a emoção no expectador que se envolve com o drama, sonhos e frustrações daquelas mulheres.
Porém, o engajamento é tímido, sutil como é o racismo no país. Aqui não temos uma luta de classes declarada com nos EUA, por exemplo. Somos um país dito liberal, de um povo aparentemente sem preconceitos. Isso foi o que Joel sempre procurou mostrar em seus trabalhos. Logo, no momento de contra-atacar, ele acabou caindo na mesma sutileza. Não expôs os fatos de maneira clara e perdeu a oportunidade de tocar no assunto de forma mais consistente. Ainda assim, é um começo. O elenco, quase todo negro e a história de uma família que poderia ser branca, azul ou amarela, mostra que todos têm direitos a grandes papéis.
Outro grande mérito do filme foi produzir uma boa obra, e tantos prêmios, com um baixo orçamento. Talvez pela experiência com documentários, Joel Zito Araújo não abusou nos recursos em seu filme de ficção. Uma pena é que ele não tenha insistido no gênero, já que após cinco anos, está novamente lançando um documentário.