
Quando A Estrada Perdida chegou as telas, os fãs de Lynch se revoltaram dizendo que ele tinha passado dos limites. Muitos críticos o chamaram de charlatão, que só queria aparecer e que nada daquilo tinha um sentido. Tanto que depois ele resolveu dirigir História Real e mostrar que também sabia fazer outro tipo de cinema. O fato é que não há explicação lógica para Estrada Perdida. Ou melhor, não precisa ter. Como uma pessoa pode virar outra da noite pro dia? Qual o sentido daquele homem enigmático? Das fitas de vídeo que Fred recebia? O que aconteceu para ele matar sua esposa? O que aconteceu na tal noite em que Pete virou Fred e que seus pais escondiam? Temos uma explicação? Não exatamente, ainda que possamos conjecturar muitas. Da mesma forma que nunca iremos responder precisamente porque os convidados da festa de Anjo Exterminador não conseguem sair da sala. Não são filmes para nos trazer respostas definitivas. Lynch mesmo já disse que não devemos decodificar o filme. É uma experiência emocional, sensorial pela qual devemos nos deixar levar.
Com esse espírito devemos assistir Estrada Perdida, claro que há símbolos e mensagens por trás daquelas imagens, mas não precisamos procurar uma explicação racional. É como os surrealistas queriam: só Freud explica. E é traçando relações com o movimento do início século XX que trago as reflexões de hoje sobre o filme de David Lynch.

Passamos, então, a acompanhar a história de Pete. Um rapaz aparentemente normal, bonito, querido pelos colegas e por sua namorada. Até que Pete encontra uma mulher misteriosa que é a versão loura da mulher de Fred e sua vida começa a se complicar. Há um clima de mistério e investigação no caso. A estética é bastante experimental, com jogos de luz e texturas que impressionam, causando sensações controversas. O clima noir é forte, devido ao mistério policial, a mulher fatal, ao caráter não definido dos personagens. Mas, tudo isso está ligado pelo surreal da falta de razão para as coisas. Nada no filme parece fazer sentido. Há também uma necessidade de liberação dos instintos primitivos através do sexo e da violência, próprios da teoria freudiana.
Por tudo isso, Estrada Perdida pode ser considerada a obra mais "surrealista" de David Lynch. Não literalmente, já que o movimento surrealista no cinema acabou se resumindo a seus dois primeiros filmes: O Cão Andaluz e A Idade do Ouro. Mas, pelo espírito e influência desse movimento, das teorias psicanalistas e da busca pela sensação onírica.