Clint Eastwood me conquistou aos poucos. Ele sabe como construir um filme que emociona e, agora, parece ter escolhido
Matt Damon como seu principal cúmplice. A trama do novo
filme da dupla é interessante, a direção tem o toque do grande cineasta e a atuação, não apenas de Matt como de todos os demais atores, é muito boa. Só o roteiro de Peter Morgan deixa um pouco a desejar, não fazendo deste uma obra perfeita, por mais interessante e perturbador que seja em alguns momentos. Um pouco meloso em sua conclusão, talvez. Ainda assim, é um belo drama.
Três histórias paralelas são contadas com a morte ou o mistério ao redor dela como ligação. Em Paris, Marie LeLay se recupera de um tsunami que quase tirou sua vida. Jornalista consagrada, apresentadora de um telejornal, ela não consegue esquecer a sensação de quase morte e decide fazer uma pausa no trabalho para escrever um livro. Em Londres, o garoto Marcus perde uma pessoa muito próxima desnorteando sua vida. Ele começa a investigar formas de se comunicar com os mortos. Nos Estados Unidos, George tenta convencer seu irmão de que jamais voltará a utilizar seu dom de comunicação com o além, pois considera uma maldição. Ele tenta viver uma vida normal, mas sempre existem pessoas ao seu redor querendo um pouco de alento.

O trailer e a sinopse adiantam o óbvio de que, em algum momento, o destino dos três irá se cruzar, o como, deixo para quem for assistir ao filme. O mais interessante de
Além da Vida, Hereafter no título original, é a forma casual como
Clint Eastwood apresenta os dramas. Coisas que acontecem, todos os dias, em todos os lugares. Afinal, qual maior certeza na vida que não a morte? A forma como charlatões são apresentados em determinado momento e a distinção de que George realmente fala com os mortos também é bem realizada.

Outra coisa interessante que tenho que destacar é a posição dos franceses, principalmente do mercado editorial em relação ao tema. É, no mínimo curioso, constatar que o país onde o espiritismo surgiu se considere tão desinteressado no assunto. "Isso é interesse de ingleses ou americanos", diz o editor. E é a pura verdade, tanto que o codificador da doutrina teve que utilizar o pseudônimo de Alan Kardec para publicar a obra. Não digo com isso que
Além da Vida é um filme espírita. Sua construção é na mesma base espiritualista da maioria dos filmes norte-americanos, onde o fenômeno é o foco. Apesar de George ser um médium, sua postura e construção cultural nada se assemelha aos trabalhadores da seara espírita. Até porque ele faz disso uma profissão rentável. Apesar disso, suas dúvidas e negação da faculdade mediúnica tal qual uma maldição são interessantes de observar. Todo médium passa por essa crise.

A direção segura de
Clint Eastwood nos conduz pelas três histórias de forma fluida. A forma grandiosa como filma o tsunami. O detalhe da propaganda de celular para demonstrar o prestígio de Marie LeLay. A forma intimista como apresenta os irmãos Marcus e Jason. A entrada de cena da mãe dos meninos mesmo é espetacular. A sutileza do mundo de George e como ele é conduzido. Gosto bastante do resultado. Como já ressaltei, só lamento que o roteiro não foi mais a fundo, acompanhando mais a trajetória dos três protagonistas, para culminar em uma conclusão sem dúvidas. Interessante ressaltar que a trilha sonora é assinada pelo próprio Eastwood que carrega na emoção.
Matt Damon defende bem a carga dramática de seu personagem, assim como
Cécile De France e o garoto
Frankie McLaren. É possível acreditar perfeitamente em cada um dos dramas apresentados. Como já falei, acho apenas que o roteiro escorrega um pouco, principalmente no final, a conclusão poderia ser melhor elaborada e algumas coisas melhor justificadas. De qualquer forma, para quem gosta de filmes com tons sobrenaturais, carregados de drama, é imperdível. Não há nada de suspense e quase nada de morte ou espíritos. O filme fala de dúvidas e certezas que cada ser humano vive, que teme a morte, quer entendê-la e adoraria se comunicar com aqueles que já se foram. Às vezes, isso pode ser perigoso, doloroso, mas, também faz parte da vida.