
Primeiro, gostaria de deixar claro que adaptação é sempre uma arte difícil. Muitos fãs dos livros, e aqui falo em geral não apenas de Harry Potter, não compreendem que são dois meios diferentes e que fidelidade e detalhes não são exatamente as questões mais importante. Se você assume que é uma adaptação, não uma inspiração, a única coisa que precisa ter é fidelidade à essência da obra. Se misturou dois personagens em um, mudou a ordem de acontecimentos ou omitiu algumas coisas, faz parte. O problema de adaptação acontece quando a pessoa não compreende alguns acontecimentos sem o apoio do livro. E isso, ocorre nesta saga.

Por exemplo, o fato de a sequência da Penseira, onde Harry Potter descobre toda a verdade sobre Snape ser resumida no filme, não é um problema. No livro, esta parte ocupa um capítulo inteiro, então sabemos muito mais detalhes da relação de Snape com Lílian, a inveja de Pefúnia, o afastamento dos amigos aos poucos, quando Snape começa a se tornar um Comensal da Morte, a briga com Thiago, o acontecimento no Salgueiro Lutador quando o pai de Harry salva a vida do desafeto, a agressão verbal de Snape que chama Lílian de sangue ruim e quebra a ligação dos dois. Enfim, tudo isso são detalhes que enriquecem a história. Mas, quem vê apenas o filme, entende o essencial: Snape amava Lílian e por isso, era fiel a Dumbledore e não a Voldemort. Então, a adaptação funciona perfeitamente.

Já no caso de Dumbledore, o problema é mais delicado. Foi cortado completamente das Partes I e II o passado do mago. No que isso interfere na história? No momento em que Aberforth critica o irmão e Harry o defende, há uma perda imensa da emoção na decisão do personagem. Durante todo o livro Relíquias da Morte, Harry começa a questionar a imagem que tem de Dumbledore por causa do livro de Rita Skeeter. O antigo diretor de Hogwarts começa a se mostrar um deslumbrado com a fama e até com algumas tendências malévolas. Alguém que jogou literalmente Harry no esparro. Mas, a fé do garoto se renova na taverna ao defender o professor do irmão rancoroso. Ele aceita o seu destino ali. Só por isso, a cena já perde em tensão dramática. Quem vê o filme apenas, também se pergunta o que afinal, Dumbledore fez para irritar o irmão e quem é Ariana e qual foi seu destino? Por isso também, no encontro de Dumbledore e Harry no “limbo”, fica faltando no filme a parte em que o diretor explica que escondeu detalhes das Relíquias da Morte de Harry com medo de que ele sucumbisse ao fascínio da vida eterna como ele fez. Isso é um problema da adaptação.

Uma breve explicação dessa trama. No livro de Rita Skeeter, ela conta detalhes da juventude de Dumbledore que envergonham o mago. Ele era deslumbrado com a fama e melhor amigo de Grindelwald, bruxo que planejava a dominação sobre os trouxas. Eles também procuravam as Relíquias da Morte, com o sonho de se tornarem imortais. No livro, há ainda a história da irmã menor de Dumbledore, Ariana, que a família escondia, segundo a autora por ser um aborto, ou seja, não era bruxa, apesar de ter nascido em uma família de magia. Na taverna, ficamos sabendo a verdade. Ariana era uma bruxa, sim, mas foi atacada por trouxas quando ainda era muito pequena e ficou descontrolada. A família a escondeu para que não fosse internada. A mãe e Aberforth cuidavam da menina, já que o pai foi preso tentando vingar a filha e Dumbledore estava viajando em busca de glórias pessoais. Quando a mãe morre, ele se vê obrigado a retornar, mas em uma discussão com o irmão e o amigo, a menina acaba sendo atingida e morrendo. Aberforth nunca perdoou o irmão, que também passou a se culpar e mudou de atitude.

Outra questão que ficou em aberto desde o Relíquias da Morte – Parte I foi o espelho que Harry trazia nas mãos. De onde ele surgiu, quem só viu os filmes não tem idéia. E fica ainda mais perdido quando Harry Potter vê o outro espelho na taverna de Aberforth e fica nervoso. Bom, aí temos que voltar ao quinto livro, a Ordem da Fênix. Nele, Sirius entrega a Harry o tal espelho, que é uma espécie de comunicador, a pessoa que tiver o outro espelho pode entrar em contato em qualquer lugar. Essa foi uma das grandes besteiras de Harry, pois em vez de consultar o espelho para falar com o padrinho quando começou a ter as visões, tentou contato pela lareira e acabou enganado por Monstro. No sétimo livro, quando Harry começa a ver um olho azul do outro lado, fica na esperança de ser Dumbledore que não morreu e está escondido. O livro dá muito mais destaque a essa ajuda misteriosa. No final, descobrimos que é Aberforth.

A mulher cinzenta é outra que cai de para-quedas no filme. A explicação detalhada de sua briga com a mãe, sua vontade de superá-la, a fuga para a Albânia, o amor do Barão Sangrento, fantasma da Sonserina, etc, são detalhes. Mas, no momento em que Harry Potter diz que quer a diadema para destruí-la e que sabe que ela também quer isso, fica uma dúvida no ar. Na verdade, Harry não tinha como saber nada disso. No livro, ela conta a ele nesse momento que a diadema tem poderes e que ela roubou o artefato da mãe na tentativa de superá-la. Mas acabou sendo morta pela homem que foi buscá-la. Ele a mata sem querer e se mata de remorso depois, porque a amava e se torna o Barão Sangrento. Helena contou essa história para Tom Riddle que foi buscar a diadema e transformou em uma horcrux, mas ela não teria como saber onde ele a escondeu. Harry só descobre, porque lembra que viu o objeto no mesmo lugar onde tinha escondido o livro de poções no sexto livro. O problema é que no sexto filme ele não escondeu o livro, foi Gina quem o jogou na Sala Precisa. Por isso, foi preciso criar esse subterfúgio da fantasma dizer a Harry, o que acabou sendo uma boa solução.


Como falei, diversas mudanças foram feitas, faltam diversos detalhes, como os fantasmas, os centauros e os elfos domésticos na batalha, a forma como Fred morreu, por exemplo. Aliás, os outros membros dos Weasleys são esquecidos nos filmes, como Carlinhos e principalmente Percy. Mas, tudo isso, faz parte da adaptação. Problema mesmo, acontece quando falta compreensão para os espectadores. Nem tudo é perfeito, ainda assim, é um boa ilustração da saga.