
Concordo, mas não deixo nunca de lembrar da frase de Jorge Alfredo em uma edição anterior do Seminário de Cinema. "Cinema também é pipoca". Ou seja, não sejamos hipócritas de condenar completamente a indústria norte-americana se nos envolvemos com muito de seu cinema. Basta ver as listas de melhores filmes de qualquer um de nós. Mas, como arte, o cinema é um processo pensante que precisa de todas as vertentes, isso é claro. E o cinema pensante brasileiro está mesmo morrendo a cada dia, em prol do cinema de entretenimento made in Globo Filmes. Nesse ponto, todas as manifestações vistas no teatro no dia de ontem fazem coro aqui.
Mediada pelo cineasta baiano Araripe, a mesa Periferias, política e estética contou com uma mistura interessante. A brasileira Ivana Bentes, pesquisadora do cinema brasileiro que critica o que ela chama de "cosmética da fome", defendendo a voz do excluído na tela. Bentes apresentou uma palestra com diversos exemplos do que ela considera um falso espaço para o morador da favela, como o clipe de Michael Jackson. E falou do que ela considera a cultura autêntica desse segmento cultural, como o funk, visto com tanto preconceito por não ser compreendido. Em uma declaração polêmica, Ivana Bentes chegou a comparar Tati Quebra-Barraco com Leila Diniz em sua postura vanguardista na posição da mulher e seu lugar na sociedade. São, segundo ela, formas de pensar o discurso político. Bentes citou ainda o que considera bons exemplos como O Nós no Morro, o Projeto Morrinho no Pereirão e docs e clipes de MVBill.

Durante o bate-papo foram mostrados trechos de filmes de ambos, na Indonésia e na França, sendo Imigrante Trabalhador de François Rabaté um destaque interessante, mostrando histórias de vida de diversos imigrantes de nacionalidades distintas que vivem na França, fazendo o trabalho que “ninguém quer fazer”, segundo o próprio filme, e que ainda são condenados pelos franceses como invasores que estão se aproveitando de seus recursos. O filme Posição entre as estrelas, de Helmrich ainda será exibido hoje no TCA. Questionados pela platéia sobre a semelhança de filmes etnográficos com seus trabalhos, ambos negaram. O francês após explicação demonstrou mesmo não ter muito de etnográfico, mas a preocupação de Helmrich em documentar o real, pareceu mesmo próximo da idéia sociológica e antropológica. Ivana Bentes completou a conversa falando que, para ser etnográfico realmente, teria que haver uma inclusão visual, ou seja, o ser excluído fazer os seus próprios filmes, sem a interferência de terceiros.

Como sempre, a noite se encerrou com exibição de curtas e longametragens. A poeira e o vento de Marcos Pimentel casa bem com as discussões do dia, captando de forma simbólica uma rotina do interior de Minas Gerais. A montagem em paralelo da vida do menino e do porco da fazenda é tocante, envolvente e bem realizada. Poético. Na segunda sessão veio Corte Seco do baiano Matheus Vianna mostrando o caminho do sisal, como diz a sinopse, da folha à fibra, das mãos às máquinas. As etapas de um ciclo. A montagem em paralelo do trabalho artesanal e industrial é bem feito. E a fotografia do filme é muito boa, com um tratamento de luz que deixa as cores vibrantes e enquadramentos diversificados, nos dando a sensação de estar lá, dentro do processo.

Ainda no dia de hoje, a Retrospectiva Bertolucci continuou com exibição de O céu que nos protege, Beleza Roubada e La Luna. E a Mostra Amor à Francesa com Um dia no campo e Cais das sombras.
Fotos de divulgação do CineFuturo.