
Muito antes de
O Diabo Veste Prada, Hollywood já havia visitado os bastidores da moda, com muita ironia e humor. Travestido de um musical, comédia romântica,
Cinderela em Paris nos dá pistas sobre manipulações diversas, desde a criação de uma nova tendência de roupa até o jogo filosófico de alguns falsos escritores.
O roteiro do filme é bem simples. Uma revista precisa de uma nova modelo para estrelar as roupas exclusivas de um famoso estilista. Em uma visita surreal a uma biblioteca, o fotográfo Dick Avery, vivido por
Fred Astaire, presta atenção ao rosto da vendedora Jo Stockton, interpretada por
Audrey Hepburn. A garota, uma intelectual panfletária, acaba embarcando para
Paris junto com a equipe onde diversas situações acontecem, inclusive, claro, a paixão pelo fotógrafo.

Em uma época em que musicais ainda tinham um grande charme e sair cantando no meio de uma cena não era problema, Stanley Donen aproveita pouco o talento de
Fred Astaire. O bailarino dá shows de dança em diversas cenas, claro, mas há uma certa timidez, não podendo destacar nenhuma sequência como inesquecível como seria o caso em
O Picolino ("Cheek to Cheek"). Mas, a explicação parece óbvia. A estrela aqui não é
Astaire, mas
Audrey Hepburn. Ela é a Funny Face do título original, ela é
Cinderela em Paris, no lamentável título brasileiro. A atriz estava no auge após o Oscar por
A princesa e o plebeu e o encantador
Sabrina. Aqui, só precisava esbanjar seu talento e charme habitual, com muito humor, e é o que faz.

Já em sua primeira aparição na loja, ela encarna bem a moça estudiosa que sonha em conhecer o filósofo criador do empatismo. Cheia de discursos e convicções, se envolve naquilo que seria mais fútil, o mundo da moda e o genial do roteiro é que ele não leva a sério nenhum dos dois. Brinca com a moda, em situações absurdas, inclusive no fiasco de algumas apresentações. Ao mesmo tempo que ironiza o bar filosófico e o próprio filósofo Emile Flostre, vivido por Michel Auclair, que parece mais interessado no Funny Face de
Audrey Hepburn, que em discutir sua teoria. Interessante ver também a figura de Maggie Prescott, a editora da Revista Quality, que no começo do filme lança moda do rosa, fazendo com que todas as mulheres usem a cor, menos ela. Ao ser perguntada, ela ainda fala: Jamais usaria!

Mas, claro que tem seus momentos mágicos. Um dos que mais gosto é a chegada do trio à Cidade-Luz. Através da música
Bonjour Paris, os três personagens exploram o que mais lhes interessa na cidade. Maggie Prescott, vivida por Kay Thompson olha as lojas de moda. O fotógrafo Dick Avery passeia por cartões postais da cidade, como a Champs-Élysées. Já Jo Stockton vai parar nos becos intelectuais, nas artes de rua. A montagem da sequência é ótima. A divisão de tela é feita em momentos-chaves, nos mostrando os três ao mesmo tempo quando necessário. A música é também empolgante, o que dá mais brilho à sequência. A única coisa que estraga é a reação forçada dos três ao se encontrarem. Mas, nem tudo é perfeito.

A fotografia de
Cinderela em Paris também chama atenção pela mistura de cores saturadas com outras pastéis. O contraste é imenso, dando um destaque visual interessante, como no cenário da revista, por exemplo, onde as portas são de cores básicas, contrastando com o branco da parede. Ou na biblioteca, quando as roupas vibrantes da equipe constrasta com os livros na estante, todos em tom amarronzado. A forma de mostrar
Paris também é bem feita, aproveitando toda a beleza da cidade, intercalando com cenas de estúdio.
Cinderela em Paris é um filme clássico. Gostoso de assistir, divertido, romântico, mas nem um pouco bobo. Traz o seu recado através de uma fórmula aparentemente tola, sendo sempre uma boa lembrança cinematográfica.
Cinderela em Paris (Funny Face: 1957 /EUA)
Direção: Stanley Donen
Roteiro: Leonard Gershe
Com: Audrey Hepburn, Fred Astaire, Kay Thompson, Michel Auclair.
Duração: 103 min