
Os americanos podem não entender, mas todo brasileiro vai chamar a nova comédia de David Dobkin de "
Se eu Fosse Você gringo". Tudo bem, não é uma mulher que troca de lugar com um homem, nem a história de Daniel Filho é original. Várias outras já foram feitas. Mas, na hora em que
Ryan Reynolds e
Jason Bateman gritam ao mesmo tempo o título do filme e as luzes se apagam, não há como não lembrar de Tony Ramos e Glória Pires.
Dave e Mitch são amigos de infância, mas possuem personalidades completamente opostas. Dave, vivido por
Jason Bateman, é um bem sucedido advogado, prestes a se tornar sócio do grupo onde trabalha, pai de três crianças e bem casado. Já Mitch, interpretado por
Ryan Reynolds é um
bon vivant irresponsável, uma criança que não cresceu, que vive em farras, com diversas mulheres e em trabalhos pouco ortodoxos sem se preocupar com o futuro. Tudo muda quando um acorda no
corpo do outro e tem que se adaptar a nova forma de vida para manter as aparências.

São vários os detalhes que se assemelham à troca dos casais, até um ritual explícito de Dave ao acordar que nos indica a
troca dos corpos pela primeira vez, da mesma forma como Glória Pires fazia. Mas, ao contrário da trama tupiniquim, há em
Eu queria ter a sua vida um viés politicamente incorreto que faz uma boa diferença, nas situações, nas piadas e principalmente no mote do porquê mudar de corpo. Dave não aguenta mais a sua vida certinha, as responsabilidades, as pressões, o não conhecimento de outras mulheres. Aquela velha história de minha vida passou e eu não vi. E esse humor ácido e bastante masculino dos roteiristas Jon Lucas e Scott Moore, os mesmos de
Se beber não case, é que dá o tom desse filme.

O início já é bastante revelador. Uma apresentação do personagem Dave com sua família nos leva a uma espécie de mundo surreal onde
bebês parecem saídos da Família Addams. O garotinho bate a cabeça compulsivamente no berço, a garotinha suja tudo. Isso sem falar de todo o desenrolar com situações escatológicas e exageros. Tudo isso para mostrar: vida de
casado é um inferno. Dave quer ser Mitch. Ele quer ser
solteiro, não quer ter responsabilidades, quer ter várias mulheres e experimentar novas emoções. Ao mesmo tempo em que Mitch gosta de sua vida, mas se sente só em vários momentos, principalmente em sua relação não bem resolvida com o pai.

A trama vai nos conduzindo em um bom ritmo de
piadas e situações adversas, sem se preocupar com o possível aprendizado de tudo aquilo. Como quando Mitch ensina à filha de Dave que problema se resolve com violência. A cena no carro, com eles voltando, a disposição dos três, a mulher de Dave interpretada por Leslie Mann, que a princípio reclama e vai sendo convencida de que aquilo é
engraçado. A forma como a câmera se dispões mostrando o três e a mudança facial dela. Tudo nos leva ao caminho de Mitch e seu formato de vida. Claro que há ali alguns exageros como a cena na cozinha com os bebês que gera mais angústias do que vontade de rir. Sem falar nas situações em que Dave se mete a experimentar a
vida de Mitch como a gravação de um filme ou a situação com Tatiana.
Ryan Reynolds e
Jason Bateman conseguem atingir as boas expectativas em ambos os papéis. Procuram encontrar o tom do personagem, independente da forma como cada um o interpreta. Isso é importante. Porque realmente acreditamos que estamos vendo Mitch no corpo de Dave e Dave no corpo de Mitch, não há exageros, não há situações forçadas para serem engraçadas. Nem mesmo caricaturas de um ou de outro. Tudo é crível e bem realizado.
Eu queria ter a sua vida é daquelas comédias divertidas, com bons momentos e algumas situações vexatórias.
Eu queria ter a sua vida (The Change-Up: 2011 / Estados Unidos)
Direção: David Dobkin
Roteiro: Jon Lucas e Scott Moore
Com: Ryan Reynolds, Olivia Wilde, Jason Bateman, Leslie Mann.
Duração: 112 min.