
Com um nome instigante e uma trama que lembra o início de
Dia de Fúria,
Tadeu Jungle estreia no
cinema após uma carreira consolidada na rádio e televisão.
Amanhã Nunca Mais é uma mistura de
drama com
comédia em uma noite em que tudo deu errado para o personagem vivido por
Lázaro Ramos. A forma como o roteiro vai escalando as complicações na trama é interessante, mas chega a um ponto em que irrita o espectador que espera muito tempo pela virada do protagonista.
Walter é um
médico anestesista que não sabe dizer não. Sua vida é sempre levada pelas decisões daqueles que o cercam, desde uma coxinha que tem que comer na praia, passando pelos plantões ininterruptos e até abaixo-assinados no hospital. É popularmente chamado de mané. O porteiro não o chama de doutor, cumprimentando como "Seo" Walter, o cirurgião o faz de manobrista e o colega de profissão abusa de sua boa vontade. Isso sem falar de sua esposa que conversa de forma sedutora com um estranho. Tudo se complica no dia do aniversário de sua filha, ainda preso no
hospital ele tem que atravessar parte de São Paulo para pegar o
bolo da festa. O que seria uma tarefa simples se torna uma aventura que se complica a cada instante.

O início do
filme promete bons momentos. Primeiro, experimentamos um contraste entre um passeio de moto por São Paulo à noite e um engarrafamento típico da metrópole preso no carro do protagonista. Todos os detalhes são explorados nessa situação, como os motoboys passando pelos carros, os mendigos pedindo dinheiro, a irritação de
Lázaro Ramos preso ali, até um símbolo singelo de parte do significado de tudo aquilo, um balão de aniversário voando pelo túnel. Somos então transportados para um dia de domingo na Praia Grande. A típica
praia de farofeiros é retratada com muito
humor e tom satírico. Pessoas obesas em detalhes, o tempo meio nublado, a multidão empilhada, a coxinha gordurosa sendo oferecida, suco com anilina em garrafinhas sendo vendido, criança querendo ir no banheiro, lixo pela areia e o pobre do Walter no meio disso tudo, tentando descansar. É interessante citar ainda a metáfora com o
hospital e o ato da anestesia, sua função.

A estética do
filme é bem realista, mas o primor dessa sequência inicial se perde à medida em que o roteiro avança. Ainda assim,
Tadeu Jungle constrói um bom recorte da vida de Walter com planos detalhes e cortes rápidos. O
hospital é bem representado, com uma boa rixa entre os
médicos e a constante sensação de urgência. Observando todos os detalhes construídos é fácil concordar com a personagem que define a vida de Walter: "Deve trabalhar em um
hospital de merda e sua mulher é uma infeliz." Seu carro não é dos melhores, seu descanso é em um lugar angustiante, sua casa é simples, e seu trabalho é estressante. Além disso, ele não é respeitado por ninguém a sua volta.
Mas, é no roteiro que reside a chave do
filme e a saga de Walter que começa com a promessa de levar um bolo de aniversário para festa de sua filha. A trama já não começa fácil, quando ele tem que abandonar uma
cirurgia no meio e enfrentar um
trânsito caótico. A partir daí, a
Lei de Murphy impera e tudo que poderia dar errado, dá, irritando o personagem e o espectador que vai escalando junto com Walter aquela noite de horror. A nossa
paciência, no entanto, esgota antes da dele. Quando o elemento que será a gota d´água em sua aventura aparece em tela, é difícil aceitar que Walter aceite por tanto tempo a situação. Isso acaba prejudicando um pouco o
filme, pois a irritação nos tira da história dizendo "ah, isso também já é demais, não existe".

Mas, apesar de alguns exageros,
Amanhã Nunca Mais se sustenta nos atores.
Lázaro Ramos volta a protagonizar um
filme depois de um bom tempo afastado com bastante segurança. Ele consegue nos passar essa apatia de Walter, que precisa passar por muita coisa para provar que não tem "sangue de barata". Destaque ainda para a boa participação de
Milhem Cortaz como o colega de hospital e
Maria Luísa Mendonça como uma vizinha do passado, a atriz ganhou o prêmio de melhor atriz coadjuvante no Festival do Rio pelo papel. Tem ainda uma participação de
Luis Miranda quase irreconhecível como um motoboy atropelado e a estranha repetição de
Paula Braun em dois papéis completamente diferentes. Fica meio inverossímil Walter não perceber que a travesti que dá carona é "a cara" da enfermeira Renata, sempre tão solícita com ele.
Amanhã Nunca Mais é um filme diferente. Possui uma história interessante que escala até irritar o espectador, tem um tom de
humor leve e um
drama que envolve. Não há grandes apelações e a direção é cuidadosa, principalmente no início. Tem problemas, principalmente por não saber onde parar, ou melhor onde dar o basta e nos fazer aproveitar a
catarse do protagonista. Mas, não deixa de ser um
filme curioso. No final, o saldo é positivo para todos.
Amanhã Nunca Mais (Amanhã Nunca Mais: 2011 / Brasil)
Direção: Tadeu Jungle
Roteiro: Marcelo Muller, Maurício Arruda e Tadeu Jungle
Com: Lázaro Ramos, Maria Luísa Mendonça, Paula Braun, Fernanda Machado, Milhem Cortaz.
Duração: 78 min.