Contos de Fadas em versões
live action modernas, esta é a moda em Hollywood. Começou com
Cinderela, veio
Chapeuzinho Vermelho, em 2012 tem duas
Brancas de Neves e ainda vem
João e Maria, além de
João e o Pé de Feijão. Há dois anos, os cinemas brasileiros são bombardeados com o
trailer de outro deles:
A Fera, inspirado em
A Bela e a Fera, que volta aos cinemas essa semana em 3D, e no livro de Alex Flinn. Demorou tanto que parecia ser algo desastroso, não chega a tanto, apesar de não passar de uma história clichê com vários problemas e pequenas doses de boa intenção.

A história é a conhecida. Rapaz metido a besta, bonito e rico que se acha superior a todos por isso. Encontra uma bruxa que o enfeitiça e o transforma em uma fera medonha. Para quebrar o encanto só encontrando o amor verdadeiro antes do prazo de um ano. E aí, entra aquela menina doce, sensível e quase escondida diante dos populares do colégio. Na tentativa de tornar a história de
A Bela e a Fera mais palpável e próxima da realidade, o garoto traz outras características, não é um príncipe em um castelo encantado, mas é o que se assemelha a isso, com um pai famoso e rico, empregados para lhe servir e uma mansão escondida, onde ninguém possa ver no que ele se transformou. E cá entre nós, ele nem ficou esse
monstro todo, né? Ficou careca, com cortes no rosto e vários
piercings e tatuagens, é verdade, mas está longe de ser um
monstro deformado e abominável. Lindy tem toda razão: "Já vi piores".
A Bela e a Fera, assim como esta versão de
A Fera na verdade é uma fábula sobre o império da beleza. Todos queremos ser belos, admiramos quem é bonito e torcemos por eles. É verdade. Todos os dias as propagandas, a mídia, o próprio cinema nos dão exemplos a ser seguidos de
beleza, elegância e moda. Queremos ser aceitos e somos "educados" para entender que os mais bonitos são os melhores aceitos. Mesmo em vaga de emprego a frase está lá, exigido boa aparência. E o que é boa aparência? É aquilo que nos dizem ser
belo.
O clichê aqui é óbvio, o rapaz arrogante fica "feio" para compreender que
beleza não é fundamental, mas no final, provavelmente voltará a ser
belo. Quase como um prêmio e quase como uma incongruência. O reverso já foi visto em Shrek, mas a regra continua sendo a junção de iguais. Afinal, Fiona vira uma ogra no final, um ogro com uma princesa também não seria aceitável. Então, a mocinha simpática e sensível merece que o rapaz volte a ser o
belo príncipe de outrora. É interessante que apesar de saber de tudo, de compreender que a
beleza não é fundamental, que o que importa é a essência interior, ficamos todos torcendo para que Lindy diga "eu te amo" antes do fim do prazo e quebre o encanto. Irônico, não? Aqui lembro de
O Amor É Cego, um filme bem mais honesto nesse quesito, já que
Gwyneth Paltrow não fica magrinha no final para agradar ninguém. Ali a gente entende que, de fato,
beleza não é fundamental.

Mas, voltando
A Fera só por suscitar todos esses questionamentos já é um
filme válido, apesar de frágil em sua maior parte. A começar pela junção de realidade e fantasia. A forma como a personagem de
Mary-Kate Olsen é inserida na trama é muito superficial. Ela surgindo como uma visagem apenas para o personagem Kyle seria mais interessante. Agora, ela ser uma aluna estranha, chamada de
bruxa e tudo mais, soou falso em uma narrativa que se diz realista. Isso sem falar na piadinha final, que é absolutamente irritante. Irritante também é a justificativa tola de colocar a culpa de tudo nos pais.
Kyle é esse garoto metido por causa do pai que tem. No fundo, ele é um bom garoto. Assim como
Lindy é esquisita e introvertida porque tem que se preocupar demais com o pai que sempre faz besteira.

O roteiro ainda apela em outros pontos como a justificativa para ela ir morar na casa dele. Ou em detalhes de cena como eles quase se beijando e o telefone toca trazendo uma notícia ruim. Além da inserção dos problemas dos empregados de Kyle e suas soluções condicionadas a ele ter sucesso na jornada. Em contrapartida, a fotografia é bem aplicada, ainda que também clichê. Enquanto ele era belo, o cenário era sempre
clean, bastante claro e vivo. Com a
maldição, os espaços ficaram sujos, com pichações em todos os muros que passava, além de uma fotografia sempre na penumbra. Mas claro que há a justificativa dele estar se escondendo.
No que diz respeito às interpretações,
Vanessa Hudgens só não canta, mas está bem próxima de sua personagem em
High School Musical e
Alex Pettyfer quando se torna a fera, consegue demonstrar uma capacidade melhor de expor suas emoções que no recente
Eu sou o número 4. Ainda assim, o casal tem uma certa química que pode agradar as platéias. Mas, a estrela do dia é mesmo
Mary-Kate Olsen que chama a atenção com sua misteriosa, ainda que irreal,
Kendra.
A Fera é um típico
Sessão da Tarde, com vários problemas, clichês aos montes, mas que pode agradar ao público que sempre torce por uma boa história de amor que só os contos de fadas podem nos dar.
P.S. Pra quem já viu o filme, ele tem um
final alternativo.
A Fera (Beastly: 2011 / EUA)
Direção: Daniel Barnz
Roteiro: Daniel Barnz
Com: Alex Pettyfer, Vanessa Hudgens, Mary-Kate Olsen, Dakota Johnson.
Duração: 86 min.