
Um exemplo cabal desses dois quesitos é a cena escolhida de hoje. O discurso de John Milton para Kevin Lomax, o personagem de Keanu Reeves sobre sua visão de mundo. O texto é forte, irônico, desconstruindo os valores enraizados em nossa sociedade sobre Deus e o Diabo. Mas, nada disso teria tanta força se não fosse a atuação entregue de Al Pacino. Ele incorpora tudo aquilo de uma forma incrível. E nos impacta.
A direção de cena é razoavelmente simples. Os personagens organizados em cada canto da sala, a montagem alternando entre plano geral e closes de cada um, destaque ainda para o plano onde temos Al Pacino ao fundo com Keanu Reeves em primeiro plano, já que estamos colados ao seu personagem, olhando de maneira distante a princípio, aquele homem cruel discursar. Percebam que a medida que ele fala, os planos de Al Pacino vão ficando mais próximos. Ele está começando a convencer Keanu Reeves e, assim, a nós também.

Outra coisa interessante que observei nessa cena ao procurá-la no Youtube foi a prova final de dublagem em live action: tira boa parte da beleza do filme. A voz de um ator faz parte de sua interpretação, o tom com que diz as palavras, o timbre de voz, as pausas. Tudo é extremamente importante. Aí, retiram essa parte de um grande ator como Al Pacino e colocam um dublador, competente, de fato, mas que não é Al Pacino. A cena então, perde muito de sua beleza, vejam bem a cena citada, dublada:
Não deixa de ser uma boa cena, a dublagem não destruiu o texto, nem a expressão corporal do ator, pois, como eu disse, é um dublador competente fazendo a voz em português. Mas, sintam a diferença ao ouvir o som original:
A cena ganha em ritmo, em emoção e potência. Definitivamente não há nada como ver o filme em sua versão original. Como as pessoas hoje em dia podem preferir filmes dublados?