
O
filme começa com uma frase do grande escritor russo
Lev Nikolayevich Tolstoy que diz: "Tudo que sei, só sei porque amo." Mas, que amor é esse da
filosofia tolstoiana, com pensamentos contraditórios que ao mesmo tempo em que liberta os prende a um radicalismo quase burro? Um movimento que prega a não
religião, mas se torna uma
religião para os que seguem e que quer fazer do seu criador um mártir em seu leito de
morte.
Esses pensamentos ficam após o final de
A Última Estação, filme de
Michael Hoffman que conta os últimos dias da vida do escritor em meio a uma verdadeira guerra, onde de um lado encontrava-se sua esposa, Sofya Tolstoy, companheira de 48 anos que queria defender o patrimônio da
família e a segurança dos filhos, do outro lado seu seguidor mais
radical, Vladimir Chertkov, que queria que toda a obra do autor fosse para domínio público, porque era do
povo russo e não de uma minoria familiar. Em meio a tudo isso, surge o jovem Valentin Bulgakov, um crente e fã do
escritor que começa a perceber que toda história possui dois lados.

Através da visão de Valentin Bulgakov, vamos percebendo as razões e defesas de cada lado, e o turbilhão em que se encontra
Tolstoy, que ao mesmo tempo que ama a esposa, ama tudo aquilo que ele pregou como ideal de vida. Afinal, a obra dele era mesmo para o
povo. O sofrimento do
escritor é traduzido em mínimos detalhes pela interpretação precisa de
Christopher Plummer, assim como o radicalismo de seu assessor é defendido com bravura por
Paul Giamatti. Mas é no talento de
Helen Mirren que nos vemos colocando abaixo qualquer ideal socialista, ver sua defesa desesperada pelo que acredita ser seu por direito. Sofya não é uma maluca egoísta como quer deixar parecer Chertkov. Ela ama o esposo e entende que ele tenha ideais, só não quer ver sua
família prejudicada com isso.

O ator
James McAvoy é o que constrói o personagem mais vulnerável de todos. Valentin chega como um jovem ingênuo, virgem, seguidor fiel dos ensinamentos do mestre
Tolstoy. Aos poucos ele conhece a bela Masha, as razões de Sofya e a obsessão exagerada de Chertkov. Sua visão de mundo se modifica, ele percebe as verdades por trás das máscaras, as crenças por trás dos medos. O
filme é todo construído nessas interpretações contidas de troca de olhares, pequenos gestos, expressões, cacoetes, como Valentin espirrar toda vez que fica nervoso, nos trazendo várias camadas daquela história de luta por ideais.
A única coisa que destoa é falar de uma história tão
russa na língua inglesa com sotaque britânico. Talvez seja o mal de Hollywood que acaba trazendo para si toda e qualquer trama, talvez por se basear tanto em atores, o elenco brilhante precisasse sacrificar a língua mãe de
Tolstoy. Mas, não deixa de ser estranho ouvir Chertkov defendendo a todo momento que a obra do
escritor é do
povo russo, e dizer isso na língua do símbolo maior do capitalismo e eterno rival daquele país.

De qualquer maneira, o ritmo do
filme de
Michael Hoffman, que também assina o roteiro, é coerente com o que nos é apresentado em tela. Talvez caia um pouco em sua parte final, se arrastando em tolices que nos fazem ter raiva do
radicalismo de Chertkov, mas não deixa de ser envolvente e emocionante. Toda a direção de arte e reconstituição de época são belas e merecem destaque. Assim como a trilha sonora melancólica.
A Última Estação é uma homenagem a um homem que viveu e lutou por seus ideias, mas que morreu dividido entre o catecismo que criou e os sentimentos que realmente lhe importavam na vida. Tentou superar o individualismo pensando no coletivo, mas acabou machucado por magoar aquela que mais amava.
Leo Tolstoy não foi um mártir, nem foi um Deus, apenas um grande homem, com sentimentos e fraquezas como vários que passaram por esta Terra.
A Última Estação (The Last Station: 2009 / Alemanha, Inglaterra)
Direção: Michael Hoffman
Roteiro: Michael Hoffman
Com: Helen Mirren, Christopher Plummer, Paul Giamatti, James McAvoy.
Duração: 112 min.