
Confesso que não sou das fãs mais entusiastas do
UFC, evento/empresa que realiza torneios de luta
MMA (Artes Marciais Mistas) e virou febre no mundo. Não gosto nem mesmo de esportes de
luta. Mas, o que
Pablo Croce conseguiu fazer em
Anderson Silva - Como Água envolve a todo espectador que goste de uma boa história e se deixe levar pelo que é visto em tela.
Anderson Silva é o principal
lutador da
UFC.
Campeão do peso médio, é considerado por muitos, o melhor
atleta da atualidade, comparado a um "Pelé do
MMA". Na época do
filme, estava invicto a onze
lutas, tendo defendido o título mundial por sete vezes, um recorde. O brasileiro ainda tem algumas características que chama a atenção para sua pessoa, fora a voz fina que já virou piada até em comercial, é simpático, de bom humor, bastante ligado à família e não possui uma fisionomia tão musculosa, daqueles que assusta. Parece uma cara comum, simples, próximo da gente. E o documentário explora bem isso.
Como Água, Like Water, esse conceito explicado por
Bruce Lee e seguido por
Anderson Silva está explicado na primeira imagem do
filme. Segundo o mestre das
artes marciais, é preciso ser como a
água, que se adapta a todos os recipientes em que é colocado "ela se adapta ou destrói". E este parece ser mesmo o melhor conselho para um
lutador de MMA, ter a capacidade de se adaptar ao adversário, à
luta, ao momento em que enfrenta. Só é questionável esse título para o
filme, ainda mais em português que gera a confusão do verbo ser para o comer (já vi muita piada sobre isso), porque não é de fácil compreensão. Tanto que precisou ser colocada uma explicação no início dele em um depoimento do próprio
Bruce Lee.

O recorte é único, acompanhar a preparação de
Anderson Silva para o confronto com o norte-americano
Chael Sonnen no dia 07 de agosto de 2010. Porque a
luta seria tão importante? Vários fatores são construídos em um bom primeiro ato.
Anderson Silva estava invicto e vinha de uma polêmica em sua última defesa do título nos Emirados Árabes. Após dar alguns golpes em
Demian Maiaque, que lhe garantiam a vitória por pontos, ele ficou apenas provocando o adversário e correndo ao seu redor. O juiz não gostou, o dono do
UFC não gostou, a platéia não gostou. Assim, a luta seguinte prometeu ser decisiva para sua carreira. Fora isso, o adversário,
Chael Sonnen ajudou a levantar a polêmica, dando diversas declarações ofensivas, prometendo que iria destruir "a farsa"
Anderson Silva.

Apesar de preferir não entrar no jogo, outro ponto que aborreceu empresário e chefe,
Anderson Silva levou a luta a sério, mudando sua base de treinamento pela primeira vez para os Estados Unidos. Longe da família, concentrado em treinar, o
atleta ficou sessenta dias sendo acompanhado de perto pela equipe do
filme. Podemos ver seus diversos exercícios, treinos de
golpes, estudos do adversário, e alguns momentos de lazer, como jogar
vídeo game ou acompanhar eventos esportivos diversos. Só não vemos os treinos com
Steven Seagal, que também ajudou na sua preparação.
O roteiro constrói uma narrativa de crescente tensão com a aproximação da
luta. Para isso, utiliza uma montagem eficiente de cenas do dia a dia do
atleta, entrevistas (dele e do adversário), reportagens de televisão, e situações pontuais, como quando
Anderson Silva, na função de treinador, acompanha seu parceiro Dandan em uma
luta. Tudo isso vai nos proporcionando sentimentos diversos em relação ao protagonista do
filme e sua personalidade. Não fica muito claro o porquê de sua atitude nos Emirados Árabes, mas fica certo o porquê dele não entrar no jogo de
Sonnen. Ele é um cara pacato que só quer cumprir sua função e voltar para família. O problema é que participar do
UFC é mais do que isso.
Anderson Silva é ameaçado em diversos momentos do
filme, por sua postura "apática" diante da
luta. Isso é bastante explorado pelas declarações de
Dana White que não esconde sua insatisfação nem mesmo quando elogia o seu
atleta. Tudo isso nos ajuda a criar a tensão necessária para o momento final. Mesmo quem já conhece o resultado ficará tenso pelo clima criado. E nada disso desmerece a boa função documental do
filme de
Pablo Croce que, apesar do envolvimento emocional produzido, nos dá abertura para interpretações e conclusões próprias sobre os acontecimentos.
Anderson Silva - Como Água é então, um bom
filme, não apenas para os fãs do
esporte. É um bom retrato de um homem fora do comum e da paixão de um
esporte, por trás do circo empresarial que gera milhões em todo o mundo. Não nos faz querer ir assistir à próxima luta de
MMA, mas faz sair satisfeitos do
cinema.
Anderson Silva - Como Água (Like Water: 2012 / EUA)
Direção: Pablo Croce
Roteiro: Ramon Lemos, Lyoto Machida, Damaso Pereira, Ed Soares
Duração: 74 min.