
Antes dos avanços da tecnologia, histórias de
ficção científica tinham que ter muita criatividade e centrar suas forças em um bom roteiro. Vide a série
Jornada nas Estrelas que criou o recurso de
teletransporte porque não tinha como fazer uma nave pousar em um planeta de forma convincente devido aos custos. Com o surgimento de novas técnicas, esse tipo de
cinema foi ficando cada vez mais visual, cheio de efeitos e em um ritmo acelerado, desperdiçando boas idéias a exemplo de filmes como
O Preço do Amanhã ou
Substitutos. E fomos nos acostumando ao padrão, mas aí chega
Área Q, uma co-produção Brasil/ Estados Unidos, que com pouca verba nos apresenta
efeitos especiais ao estilo dos anos 70 e 80, além de outros problemas técnicos como a fotografia, mas com uma força na história que nos prende até o seu final.
Tudo começa na pequena
Quixadá, pequena cidade no interior do Ceará que junto a outras quatro foram a
Área Q. Esse pequeno espaço quase no meio do nada há trinta anos presencia
fenômenos inexplicáveis, como
abduções e curas de doenças. Uma revista norte-americana resolve, então, enviar seu melhor repórter, Thomas Mathews, para investigar o caso. O problema é que Thomas está passando por um sério problema pessoal. Seu único filho foi levado, aparentemente por um pedófilo em um parque e ele não consegue parar de pensar nesse assunto. Porém, ao começar a se envolver com os acontecimentos da
Área Q, ele vai começar a repensar todos os seus valores, inclusive sua relação com o filho.

O argumento de
Gerson Sanginitto é muito bom, a trama se fecha de uma forma satisfatória unindo suspense, tensão e mensagens positivas ligadas ao
espiritualismo, sem ser didática. O roteiro escrito pelo próprio diretor junto a Julia Câmera também funciona, apesar de demorar muito no primeiro ato, com a apresentação dos personagens. A escolha pela não-linearidade com a repórter entrevistando Thomas Mathews também é pouco justificada, dando apenas mais uma quebra na trama e tirando a surpresa de que o protagonista irá se convencer da existência de
alienígenas. Ainda assim, a economia narrativa nos prende àquela história e àquele personagem, nos deixando mais tensos à medida em que se aproxima o seu final, tendo uma justificativa final convincente.

As referências de
Gerson Sanginitto são bastante claras, a começar pelos filmes de
Steven Spielberg, principalmente
Contatos Imediatos do Terceiro Grau com pessoas visualizando uma montanha misteriosa. Há também uma forte influência do filme
Contato com
Jodie Foster, não apenas por alguns conceitos de contatos, como por um detalhe relacionado a um objeto do repórter. Isso sem falar na série
The 4400. Há uma cena, inclusive que é muito parecida na forma de explicar tudo aquilo. Mas, ainda assim, não temos a sensação de estar vendo uma colcha de retalhos com ideias requentadas. O
plot de vir ao Ceará, local realmente conhecido por fenômenos
alienígenas, tendo até a escritora Raquel de Queiroz como exemplo de confirmação, deixa tudo bastante coerente e até inovador. Principalmente porque não é simplesmente o
fenômeno pelo fenômeno, há uma explicação para tudo aquilo e consequências que me lembram teorias
espíritas que já li e ouvi em vários lugares.

A questão técnica, no entanto, é o calcanhar de Aquiles de
Área Q, principalmente se levarmos em conta um público cada vez mais acostumados a grandes efeitos e poucas histórias. Os efeitos especiais são quase defeitos, principalmente no início. A primeira
abdução é quase assustadora, mas vai melhorando à medida em que o
filme caminha, com uma luz mais sutil e uma fusão criando a sensação do sumiço. A bolha com pontos luminosos fica harmônica no ambiente. E a esfera no final, apesar de parecer destacada também não compromete nossa crença. A fotografia, no entanto, é bastante problemática. Sempre muito granulada, com tonalidades lavadas e uma sensação de imagem opaca a todo momento. Nem mesmo a luz brilha como deveria. A trilha sonora é outro grande problema,
over em vários momentos, chega a incomodar no início, não criando o clima propício, forçando a emoção e tentando passar uma eterna sensação de brasilidade. Mas, assim como os efeitos especiais, ela vai melhorando com o andamento do filme, tendo bons efeitos de
suspense e tensão na parte chave da trama.
A montagem, em geral, funciona, apenas em uma cena temos um corte brusco para apresentar a personagem de
Tania Khalill, quando eles estão em um bar. É tudo muito forçado para tirar a atenção da mesa de Thomas e Eliosvaldo para a deles. Aliás, a personagem de
Tania Khalill é o único grande problema do roteiro. Figurante de luxo até metade da história, funciona como uma espécie de mulher fatal do estilo
noir, mas acaba revelando uma construção bastante rasa, tola até, dentro daquele universo fílmico. Destoa diante de personagens melhor desenvolvidos como Thomas, João Batista (o primeiro abduzido) e até o guia turístico Eliosvaldo, ótimo alívio cômico da trama.

Agora, as atuações, mesmo de
Tania Khalill como a misteriosa Valquiria, estão convincentes. O americano Isaiah Washington, mais conhecido pela série
Grey´s Anatomy, defende bem o seu Thomas, com todo o drama do filho e a mudança de crença quando vai presenciando os
fenômenos.
Murilo Rosa também é bastante feliz ao construir três personalidades distintas para João Batista, o ser que ele se transforma 30 anos depois e seu filho. E
Ricardo Conti consegue tornar Eliosvaldo engraçado, sem cair na caricatura, o que já é um ótimo resultado.
Mesmo com problemas técnicos e efeitos especiais datados,
Área Q acaba surpreendendo pela força de sua história. Traz algo completamente diferente para o
cinema brasileiro, capaz de agradar a comunidade
espírita que vinha acompanhando a leva de
filmes doutrinários desde Bezerra de Menezes, e satisfazer parte do público de gosta de
cinema em sua forma inicial, de utilizar a linguagem para contar uma boa história e nos fazer pensar. Pode sofrer com um público habituado ao estilo atual centrado na embalagem, mas dando uma chance a seu conteúdo, é possível sair satisfeito.
Área Q (Area Q, 2012 / Brasil / EUA)
Direção: Gerson Sanginitto
Roteiro: Julia Câmara e Gerson Sanginitto
Com: Isaiah Washington, Murilo Rosa, Tania Khalill e Ricardo Conti
Duração: 107 min.