
No cinema, alguns filmes surgem tratando do problema, vide os já citados aqui Terra Vermelha, Hotxuá e Xingu. Esses dois últimos ainda em cartaz em todo o Brasil. Outro filme interessante, só para ficar no território brasileiro, é A Floresta Das Esmeraldas dirigido por John Boorman, que é marcado como o primeiro trabalho de Dira Paes, como a índia Kachiri. O filme conta a história de Bill Markham, interpretado por Powers Boothe, um engenheiro que vai ao Brasil participar da construção de uma hidrelétrica que irá desapropriar diversos índios. Em represália, a tribo sequestra seu filho pequeno e o cria como um deles. E tem ainda o filme Brincando nos Campos do Senhor, de Hector Babenco. Adaptação do romance homônimo de Peter Mathiesse, a história trata de um casal missionário que tenta catequizar índios na selva amazônica, tendo como foco principal a intolerância à diferenças.

O Estado do Mato-Grosso começou a ser ocupado na década de 70, com o incentivo do Governo para explorar melhor essas terras e suas riquezas. Diversos trabalhadores começaram a se dirigir para o local como uma espécie de novas "entradas e bandeiras". Isso pode ser visto no filme de Cao Hamburger, Xingu, que mostra uma dessas expedições onde os irmãos Villa-Boas embarcaram. Foi assim que surgiu a Suiá-Missú, a maior fazenda do mundo com 1,5 milhão de hectares. O latifúndio foi criado a partir das terras de Ariosto Riva e pelo Grupo Ometto que recebeu da SUDAM um financiamento de 30 milhões de dólares na época. Isso só foi possível graças a um documento da FUNAI atestando a inexistência de índios na região, o que não era verdade. Pronto, problema instalado, milhares de índios da tribo Xavante Marawãtsède foram expulsos de suas terras.

O documentário Vale dos Esquecidos busca explorar esses diversos mundos que existem na fronteira faroeste entre o Araguaia e a bacia amazônica, observando cada um desses universos tentando entender a disputa por terra colocando-se no lugar de índios, posseiros, fazendeiros e sem-terra. "O documentário confronta o posicionamento de cada um desses grupos, examinando uma parte do país em que a violência se firma como primeiro idioma e o fogo consome uma mata que queima há quase cinqüenta anos", afirma o material de imprensa. Seria "um relato sobre o desejo intrínseco do homem pela posse da terra, um retrato sobre a vida na Amazônia, uma obra que conta a história de um pedaço do Brasil em guerra contra si mesmo".
A diretora do filme, Maria Raduan, começou sua carreira como publicitária, na DM9, fundando posteriormente a agência Toró, onde começou a trabalhar mais intensamente com as produções audiovisuais. Em 2006, realizou o documentário “Mulheres da Roça”, que retrata o dia a dia de mulheres que vivem em áreas rurais do Brasil. Em 2007, finalizou o projeto “Rubico”, um documentário biográfico sobre o pecuarista Rubico Carvalho, em que exerce as funções de direção e produção. Abaixo uma pequena entrevista disponibilizada pela assessoria de imprensa em que Maria Raduan fala sobre o filme:

Sou muito ligada a natureza, apaixonada pelo Brasil e tenho uma relação muito forte com o sertão, mas sempre achei que esse assunto nunca tinha sido retratado da maneira correta. Costumava passar as férias na fazenda da minha família, em meio aos animais, pastos e peões. Este é um mundo realmente muito próximo para mim. Essa é um assunto que raramente é abordado e as poucas vezes que isso ocorre é feito de maneira superficial.
Quais foram as dificuldades encontradas durante a realização?
É difícil falar com um posseiro no meio do mato que está com um revólver na cinta, e eu me sinto muito a vontade para fazer isso. Já visitei tribos inúmeras vezes é um assunto que tenho intimidade, mas os índios Xavante Marawãtsède foram muito mal tratados e por isso são defensivos, a primeira vez que estive lá foi muito tenso. As mulheres me hostilizavam e tiveram alguns momentos que tive medo. Mas durante os dois anos entre idas e vindas para a pré-produção e a captação das imagens, eles passaram a ser menos repelentes e consegui estabelecer uma relação com a tribo.

Saí a campo e passei por diversos lugares para conhecer as pessoas, convivi com os sem-terras. Me deslocava pela região em busca dos nomes que eram citados pelos entrevistados e realizei um grande estudo quando voltei para São Paulo a fim de compreender todo o contexto em que vivem essas pessoas para assim poder dimensionar todas as partes da história. Tive alguns problemas com a logística, tudo no Vale é muito longe. Para sair de Goiânia e chegar até o Vale dos Esquecidos são necessárias 14 horas de carro. Qualquer mudança de locação necessita de muitas horas de transporte.

Eu demorei a entender a história que iria contar, isso só foi definido de fato com a Jordana Berg, na ilha de edição. A princípio queria entender a história dos índios e durante o processo percebi que existiam muitas outras variáveis e seria impossível contar uma história sem retratar as outras. Foi quando percebi que o Vale dos Esquecidos seria uma radiografia de como é a Amazônia brasileira hoje. Os protagonistas dessa história sempre foram os mesmos ao longo dos anos: o fazendeiro, o índio, o sem-terra, o posseiro e o fogo. Seja no Acre, Mato Grosso, Tocantins ou Pará os elementos sempre são esses, a história pode ser um pouco diferente, mas sempre combina essas variáveis. O Vale dos Esquecidos fala dessas pessoas que lutam por terra, que criam inimizades por conta dessa disputa e que chegam a matar seus rivais em nome da posse de um território.