
O foco principal da trama é a mente humana. Dante, o protagonista, está recluso em um hospital psiquiátrico há dez anos, esquecido pelos familiares e desenganado pelos médicos. Psicótico, apresenta quadro de delírio constante e não se comunica com ninguém. Seu cotidiano é bastante esquemático. Cava um buraco o dia inteiro, sem um objetivo claro. Em determinados momentos, realiza um ritual estranho com rugidos, simulação sexual, briga corporal e morte. Retornando depois de um tempo a cavar. O quadro instiga a residente Dra. Paula que irá investigar seu caso, tentando descobrir o que aconteceu e como poderá ajudá-lo.


O mistério também instiga quando nos é apresentada a situação. A princípio são três pilares: o pai, a ex-professora e a amiga de infância. Depois surge o ponto-chave da pesquisadora arqueológica René, vivida por Rosanne Mulholland. Apesar do roteiro nos conduzir com elementos óbvios de manipulação, fazendo com que René nos pareça a vilã inconteste, há uma nuança no desenrolar que o torna interessante, mantendo a curiosidade e o jogo do que é ou não revelado. Mérito também para os atores que defendem em seus personagens, principalmente Felipe Kannenberg que nos dá um Dante incrivelmente real. Seu olhar nos dá medo de tão profundo. Ponto negativo apenas para Alexandre Vargas, como um caricato Ciro.

Ainda assim, Menos Que Nada consegue cumprir o seu papel de contar uma boa história. É competente ao trazer o drama psiquiátrico para discussão, seja pelo despreparo dos hospitais públicos ou pelo descaso dos envolvidos por uma descrença de possibilidade de cura. É honesto em seus questionamento e cria uma trama plausível para isso, mesmo que soe um pouco fantasiosa, ainda que pesquisas arqueológicas semelhantes existam de fato no Rio Grande do Sul. E é hábil em conduzir tudo isso pelo viés investigativo, pois, além de justificar a técnica quase documental, ainda envolve o espectador pela curiosidade natural de todo ser humano.
Um bom filme, com ótimas intenções, pouca verba e alguns deslizes.
Menos Que Nada (Menos Que Nada, 2012 / Brasil)
Direção: Carlos Gerbase
Roteiro: Carlos Gerbase
Com: Felipe Kannenberg, Rosanne Mulholland, Maria Manoella, Branca Messina
Duração: 105 min.