
Boa parte dos diretores fazem
blockbusters como parte da indústria para ganhar dinheiro, fama e poder fazer obras mais autorais e até, experimentais. Não deixa de ser curioso que
Tony Scott tenha começado a carreira de diretor cinematográfico com algo tão autoral e estético quanto
Fome de Viver, tendo terminado como um diretor de
blockbusters, bem feitos, mas sem grandes inovações como
O Sequestro do Metrô 123 e
Incontrolável.
Fome de Viver, que em seu título original é
The Hunger, traz a história da
vampira Miriam Blaylock, interpretada por
Catherine Deneuve que de tempos em tempos escolhe uma pessoa para ser seu acompanhante na eternidade. A troca de
sangue entre ambos, a mantém jovem e bela, enquanto esta lhe promete a vida eterna (Forever and ever). O problema é que a tal
eternidade tem seus efeitos colaterais e depois de um tempo, o ajudante acaba envelhecendo de uma só vez o que não envelheceu em anos. É assim que encontra-se o personagem de
David Bowie, John Blaylock, que em seu desespero procura a médica Sarah Roberts, vivida por
Susan Sarandon em busca de uma cura para sua doença. Do encontro dos dois, outras consequências podem mudar o destino de todos.

É bom deixar claro aqui que o termo
vampiro nunca é dito no filme. A Miriam de
Catherine Deneuve também não tem problemas com sol, cruzes ou alho, nem precisa dormir em um caixão. Seu símbolo é uma corrente egípcia que esconde uma pequena faca, já que não vemos também
caninos afiados crescendo em sua boca. As únicas relações com os príncipes noturnos são o próprio
sangue, a vida eterna e o poder de
sedução. A forma como Miriam entra na mente de Sarah e a envolve, não deixa de ser fascinante. Isso sem falar em sua capacidade de criar ilusões e manipular acontecimentos, como impedir que o táxi pare para socorrer a médica em determinado momento.

O roteiro de
Ivan Davis e
Michael Thomas é hábil ao construir o suspense em relação aos códigos e relações ali envolvidas. Por mais que algumas pontas pareçam soltas, vamos nos envolvendo, ficando curiosos sobre o que tudo aquilo significa e como poderá ser resolvido. Os personagens são bem pensados, dando o sentido para suas ações e não apenas colocando-os como peões de um jogo de xadrez. E os atores ajudam nessa composição caindo como uma luva, principalmente
Catherine Deneuve, extremamente sedutora e bela, e
Susan Sarandon.
Mas, o que chama a atenção mesmo em
Fome de Viver é a estética proposta por
Tony Scott. Tudo é muito plástico no
filme. A abertura com aquela espécie de inferninho com
David Bowie cantando já traz um impacto interessante. Cada cena constrói composições de elementos da natureza, cenários envolventes como a quantidade de cortinas brancas no quarto de Miriam e todos os objetos de arte que ela guarda. Tudo ajuda a tornar o
filme uma experimentação visual muito boa. A utilização das músicas também é bastante feliz, a começar pelo rock pulsante até o clássico e o contraste entre os estilos.
Fome de Viver possui ainda muitas simbologias e metáforas. A construção em paralelo do personagem John com o macaco que a doutora Sarah analisa é muito bem realizada. Tudo através de montagens rápidas e comparações visuais cheias de significados. A incapacidade de dormir, a agitação, o ataque a outro ser, a
fome, o envelhecimento rápido. Nesse ponto, vale um elogio também à maquiagem que consegue um bom resultado, principalmente para a época do
filme. Há uma preocupação em manter o clima tenso também em algumas cenas como a de John com Alice na casa e a própria sedução de Miriam à Sarah.
Fome de Viver é um filme extremamente estético, autoral e até mesmo experimental. Possui um toque forte, surpreendente que nos fez pensar que
Tony Scott teria outro caminho em Hollywood. Talvez o sucesso estrondoso de
Top Gun o tenha levado a outras escolhas, o que não o desmerece, bom deixar claro. Mas, este acaba mesmo sendo o seu maior legado para a história do
cinema.
Fome de Viver (The Hunger, 1983 / EUA)
Direção: Tony Scott
Roteiro: Ivan Davis e Michael Thomas
Com: Catherine Deneuve, David Bowie e Susan Sarandon
Duração: 97 min.