
No Brasil, os roteiristas esbarram em legislações caso queriam criar tramas fictícias que misturem fatos históricos. Envolver personagens da nossa política, então, é proibido, a não ser que siga fielmente o que contam os livros didáticos. Já nos
Estados Unidos não há restrição para criar em cima de personagens históricos. O que é uma coisa boa, já que o país está repleto de
presidentes icônicos que dão margem a muitas situações inusitadas.
Assim, a imaginação pode correr solta, criando coisas quase absurdas como
Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros. Afinal, tornar a
Guerra de Secessão uma luta entre
vampiros e seus
caçadores é quase inimaginável. Ainda mais se o líder dos caçadores for o próprio
Abraham Lincoln. Foi isso que
Seth Grahame-Smith imaginou e agora sua história virou
filme nas mãos de
Timur Bekmambetov, que contou ainda com a produção de ninguém menos que
Tim Burton. O resultado tem altos e baixos, com bons efeitos de suspense e alguns momentos interessantes.

O próprio
Lincoln nos conta sua história enquanto a escreve em um diário. Assim, voltamos à sua infância, quando um caso instigante acometeu sua família. Ao defender um menino negro, eles compraram briga com um mercador do cais, sem saber que ele escondia um segredo assustador. A mãe da família pagou o preço com sangue e o garoto cresceu querendo se vingar. É aí que ele vai conhecer um mestre que o fará o principal
caçador de vampiros da localidade.
A história tem potencial. A premissa inusitada e a relação de trevas, suspense e
vingança nos conduz em bons efeitos de envolvimento e susto. Assim como a relação da situação dos negros, a localização dos seres no sul do país e a
Guerra de Secessão traz boas construções, tornando a mistura interessante. Porém, em determinado momento tudo aquilo perde fôlego, torna-se repetitivo e os minutos se arrastam. Principalmente depois que determinada coisa acontece e a trama muda de rumo.
Benjamin Walker também se esforça, mas não consegue ter tanto carisma a ponto de nos fazer embarcar em sua história com tanta facilidade.

Por outro lado, a construção estética traz situações e até estranhamentos curiosos, como na cena em que Abe se aproxima da mãe doente. A câmera foca no garoto, mas nossos olhos não conseguem sair dela, mesmo que desfocada, pela tensão criada em relação ao que ela pode estar se transformando. Esse jogo de insegurança é constante no
filme, nos levando a escalar níveis de tensão durante toda a projeção. O terreno nunca parece seguro, o que é bom e nos deixa presos à cadeira. Assim, temos boas cenas como a da baía. Sem falar nos ataques diversos do protagonista em ação.

Da mesma forma, a montagem constrói boas relações como os rastros de
sangue e a tinta da caneta escrevendo o diário. Há ainda uma boa construção de efeitos com imagens estáticas, quase pausas fotográficas que marcam o ritmo das cenas de ação. O que nos traz também a lembrança da projeção em 3D, que se não se justifica completamente chegando a ser esquecido em boa parte do
filme, pelo menos traz dois momentos muitos bons, um envolvendo uma bala, outro, morcegos.
Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros é um divertimento. Tem problemas, tem acertos e traz uma curiosidade lógica diante de tanta questão ilógica. Não é daqueles
filmes que ficam, é verdade. Mas, enquanto você assiste te leva a crer que é mesmo possível existir seres das trevas que sugam pescoços por aí.
Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros (Abraham Lincoln: Vampire Hunter, 2012 / EUA)
Direção: Timur Bekmambetov
Roteiro: Seth Grahame-Smith
Com: Benjamin Walker, Rufus Sewell, Anthony Mackie, Mary Elizabeth Winstead e Dominic Cooper
Duração: 105 min.